O homem que entrou numa canoa furada

A bonitona Priscila Ribeiro levou susto na Boca Maldita quando divulgava vantagens da banda larga de uma concessionária de serviços de telecomunicações, destas que atendem mal o consumidor brasileiro. Priscila é fluente em inglês, mas um pouco lerda no raciocínio. Quando viu o homem de aparência, distinto, de terno, camisa branca, chapéu novo comprado na Casa Edite, bengala e olhando por cima das cabeças das pessoas, vislumbrou um cliente em potencial. Ela não sabia que o tipo era Sandoval Ferreira, que se apresenta como Sandoval Foellinger. Sandoval conhece expressões em inglês e quando cisma que nasceu em Maryland, repete-as dando a impressão em quem ouve de ele ser fluente no idioma.

Priscila meteu sorriso no rosto e perguntou sensual: “O senhor não está interessado em conferir os novos planos de nossa empresa?” Sandoval sorriu como ele acreditava ser um americano sorrindo e respondeu: “Sorry honey, but I just know I communicate in English”. Priscila perguntou: “Nossa!! O senhor é americano?” Priscila é bonita, mas lerda. Ela entendeu o que o sujeito disse. E fez a pergunta em português. Sandoval que é doido de pedra, respondeu: “Claro que sou, garota! Sou de Baltimore”. E foi embora sem perceber que acabara de responder em português. Priscila ficou uns dez minutos tentando entender o que aconteceu. E acabou chegando à conclusão de que não entendeu nada.  

A cena aconteceu há dois meses e revela o lado excêntrico de Sandoval. Antes que ele aprontasse alguma, a família o mandou para Antonina, para a casa de um parente, que tem casa de fundos na Ponta da Pita, onde Sandoval ficou alojado. Os parentes de Antonina cuidariam dele mediante ajuda de custo mensal. Tudo arrumado. A princípio, até que Sandoval se deu bem. Ele ficava parecendo o último americano de Antonina, de casaco escuro, chapéu e bengala, até o dia em que um bacana que gosta de fazer extravagância se encantou com os modos de Sandoval e deu um jogo de videogame de presente para ele.

Sandoval agradeceu, mas não sabia o que fazer com aquilo. Ele não tinha interesse em videogame. Um espertinho que se apresentou como Pompílio Pataca Pimpão, alegando ser pescador e fanático por videogame, propôs a Sandoval trocar o brinquedo por uma canoa seminova. Sandoval foi ver a canoa, gostou da cor da canoa e fez negócio. No mesmo instante, ele entrou na canoa para fazer a primeira viagem. Ele foi remando, quando algumas dezenas de metros adiante, ele notou que havia um furo casco da canoa, por onde entrava água. Sandoval percebeu que seus pés estavam úmidos e que o fundo da canoa agora era líquido. Ele entrou em pânico e começou a berrar: “Help, estou naufragando. Help, estou naufragando”.

Ele teve sorte de alguns pescadores o resgatarem enquanto a canoa ia a pique. Sandoval então soube que Pompílio não se chamava Pompílio, mas Genésio Conceição, que não era pescador, mas trambiqueiro. E a canoa não era dele, mas do velho Dionísio, um pescador. Muitas descobertas. Genésio foi preso, mas ficou em liberdade. Sandoval perdeu o jogo de videogame, mas estava feliz porque escapou de um terrível naufrágio. A família trouxe Sandoval de volta para Curitiba. Ontem eu o vi vai passar pela Boca Maldita. Ele me olhou e disse: “Hello, boy!”. Eu respondi: “Good luck, Mr. Foellinger”. Ele ficou feliz.

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