O homem que beliscava cabelo no ônibus

Nestor Hoffmeister comprou há alguns anos um Chrysler PT Cruiser de cor preta. Carrão. Eu gosto dele pelo estilo anos 30. Nestor deixou o carro em casa e foi de ônibus trabalhar. Eu achei que ele era munheca. Ou maluco que gosta de carro e tem medo de usar e o carro arranhar ou estragar. Tem cara assim. Mas depois de um tempo, Nestor começou a ir de carro para o trabalho e nunca mais andou de ônibus. A gente deixou de se ver, porque se encontrava sempre no ponto de ônibus, embora ele fosse para um lado e eu para outro. Dia destes encontrei Nestor; estava gordo. Pensei: ficou rico. Como diz o velho ditado, rico fica gordo à toa. Vinte e cinco quilos a mais no corpo de Nestor fizeram belo estrago na silhueta do cara.

E na minha condição de sem-carro, pensei com maldade: ‘Adianta ter um Cruiser e andar por aí com uma pança desta?‘. Pensamento maldoso faz bem para o ego da gente. Já estava quase feliz de não ter um Cruiser. Ainda que minha barriga não seja tanquinho, mas um carro bonito não combina com pança enorme. Eu com cara de quem me divertia secretamente quando levei um golpe de Nestor. Ele me perguntou: ‘Você é tarado?‘. Gaguejei. Ainda que fosse não tenho idade para ser. Ou seja, se for, tenho que esconder a anomalia. ‘De onde tirou esta ideia?‘. Ele respondeu e a resposta dele me deixou tranqüilo: ‘Você só anda de ônibus. Tem coisa errada em você‘.

Eu respondi que centenas de milhares de pessoas em Curitiba e região metropolitana andam de ônibus e não são taradas: ‘São cansadas, ao fim do dia, isto sim‘. Ele disse: ‘Mas você pode comprar carro. E se não compra é tarado‘. É divertido pensar mal dos outros. Mas como é ruim saber que os outros pensam mal da gente. A conversa me deu angustia. Até porque ele tem razão: eu podia comprar um carro e desde o milênio passado não comprei. Mas ele mudou de conversa: ‘Eu fui um capilomaníaco. Eu me tratei e hoje não sou mais‘. Eu não sabia o que era capilomaníaco. Nestor disse que inventou a palavra. Era tarado por cabelos. Cabelos femininos. Ele disse que andava de ônibus, embora tivesse um Crysler Cruiser, porque gostava de entrar, sentar e discreto massagear cabelos de mulheres nos bancos da frente, sem que elas vissem, belos cabelos, claro.

Ele disse: ‘O cabelo pode ser acariciado, massageado, beliscado, alisado, sem que a dona do cabelo perceba, desde que você não puxe os fios. Eu fechava os olhos e imaginava coisas‘. Coisa de louco. Eu me lembrei de uma novela que tinha um sujeito que cortava e colecionava mechas no guarda-roupa, trancado a sete chaves. A doideira não era nova. Mas Nestor se ferrou. Um dia ele alisava o cabelo de uma loira na linha Juvevê-Água Verde e levou um sopapo de um sujeito. Era o marido da loira, que não sentou ao lado porque o ônibus estava cheio. Nestor percebeu que precisava se tratar. E se tratou. E se curou. Mas não era feliz. ‘Depois que eu me curei eu fiquei gordo‘, confessou. ‘No fundo do coração, ainda sou louco por cabelo de mulher‘, disse. Eu pensei em sugerir para ele virar cabeleireiro nas horas vagas: ia ganhar dinheiro e se divertir. Mas é perigoso brincar com estes caras. Por isso eu disse: ‘Eu ando de ônibus por outros motivos‘. Quer dizer, para não andar a pé. Mas ele não ia entender uma coisa tão absurda desta.     

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