Kenjiro Tanaka disse para a antropóloga Cassandra Korozowski que começou a fazer origami quando criança. Depois cresceu e não parou. A conversa aconteceu perto da perua dos pasteis na feira do Pilarzinho. Justino vai todas as manhãs de sábado comer pastel dos japoneses. Ele ouviu a conversa e se animou. Justino Candiero é cearense e diz que foi poeta popular na feira de Caruaru. Ele gosta de falar difícil e usa chapéu de cangaceiro. 

Antes de Tanaka continuar a resenha, Justino disse que era bom no origone. A antropóloga sabia o que era origami. Qualquer criança conhece a secular arte de criar animais e objetos com papéis dobrados. Mas Cassandra, que não sabia o que era origone e partiu do princípio de que Justino fazia onda, jogou pesado.

Ela disse: “Sai pra lá, Pernambuco”. Ser chamado de Pernambuco não devia ter conotação pejorativa, embora fosse o intento da antropóloga. Justino se enfesou, armou-se de indignação e arrematou: “A moça, do livro, não leu o frontispício. E quer ser doutora pela Universidade de Grenoble. Eu não vim de nenhum surungo e se garatujo poemas, não padeço de verborreia”. Falou bonito, hermético e arretado.

Cassandra passou dois anos em Montmartre e mais dois em Grenoble e não entendeu o linguajar. No entanto, admitia: Justino falava coisa que tinha sentido, embora ela desconhecesse o significado das palavras chaves. Tanaka não tinha nada com aquilo e riu amarelo, o que na antropologia tradicional podia significar qualquer coisa. Mas Cassandra preparava tese de doutorado sobre origami para defender na Universidade de Grenoble e precisava de resposta.

Ela perguntou a Justino: “O que é origone?”. Ele podia fazer cara de mistério e deixar a moça no obscurantismo acadêmico. Mas ele era poeta popular e não ia esconder o conhecimento. E revelou: “Origone, também conhecido por orijone, é a porção de talhadas de pêssegos secas ao sol, com as quais se faz doce de caldas”. Cassandra nunca ouviu aquilo. Justino ainda indagou: “Você sabe o significado de onomástica ou de ortostilo?”.

Cassandra não sabia. Satisfeito, Justino se afastou e Cassandra voltou a perguntar para Tanaka como o origami entrou na vida dele. Tanaka disse que o origami não entrou em lugar nenhum porque sempre esteve presente da vida de seus antepassados.