Não corra, não mate e não morra

Cheguei em casa à noite e meu filho perguntou: “Ficou sabendo da última?”. As “últimas” estão rápidas e abundantes e a gente nem vê direito. À tarde quem perguntou foi o motorista de táxi, quando fui para a rua Romédio Dorigo conversar com um jogador dos velhos tempos. No caso, eu sabia da “última” que foi a explosão de um carro em São Paulo motivada por gás de cozinha. O motorista discorreu sobre as consequências nefastas para os donos de veículos que usam gás de cozinha de forma imprudente.

Ele estava certo. Pelo menos achei. No caminho, o sinal verde abriu e um apressado passou o vermelho e bloqueou a passagem. O motorista disse: “Esses apressados, uma hora sempre se ferram”. Mais uma vez concordei. Ao chegar em casa, meu filho indagou sobre a nova “última”. Que, na realidade, não era tão fresca, mas impressionava por acontecer nas proximidades de minha casa onde a frequência de “últimas” não era grande. Ainda mais com morte. Pois bem, a “última” a que ele se referiu foi sábado de manhã enquanto eu estava na redação, tão atento ao trabalho que não dei importância aos comentários de colegas sobre uma morte estúpida num radar eletrônico – sempre tem morte estúpida no trânsito, virou rotina.

Um motociclista se aproximou em alta velocidade da lombada eletrônica da rua Professor Nilo Brandão, sentido Mateus Leme para Anita Garibaldi, e tentou enganar o marcador que flagraria a infração. Ele entrou na contramão, perdeu o controle da moto, atropelou uma mulher, mãe de dois filhos, que descia do Interbairros II. A mulher caiu, bateu a cabeça no meio fio e morreu na hora. O imprudente se descontrolou e se esborrachou mais adiante, morrendo e deixando pedaços seus e da moto por vasta área. Uma tragédia. O acidente que meu filho contava agora em detalhes e que ouvi vagamente na redação eram o mesmo.

Então me lembrei do taxista. Ele foi profético. O cara do acidente era da Aeronáutica e voava de moto na cidade. Tinha reincidência. E se ferrou. Mas levou junto quem não queria ir. Agora, com os detalhes, eu fiquei chocado, embora esteja há tempo numa profissão que toda hora registra exemplos de estupidez humana. A vida tem valor tão grande que toda vez que sou informado de algo parecido, fico chocado, como soldado na guerra. A morte no trânsito é uma rotina, mas uma rotina cruel. Meu filho e seu amigo Eduardo tinham no rosto uma expressão que aumentava a minha angústia. Do jeito que aconteceu qualquer um poderia ter ido para o vinagre.

As ruas da cidade estão pequenas para tantos veículos, produzidos todos os dias, sem parar. Correr, não resolve, aumenta os riscos para quem dirige e para quem não dirige e não quer morrer. Os números de mortos no trânsito, todos os anos, são maiores que os de uma guerra. É como tivéssemos a cada ano número de mortos de uma guerra longa. Além dos alucinados, dos irresponsáveis e dos bêbados nos automóveis, temos a categoria de alto risco, a do motocicilista, num veículo em que a pessoa está ainda mais exposta e sujeita a acidentes. Se juntar isso a falta de bom senso temos a receita para tragédia. Se você está no controle de um destes dois veículos: não corra, não mate e não morra. A pressa é compreensível, mas ela pode levar para um lugar que ninguém quer ir de forma estúpida. O cemitério.

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