O meu amigo José Luís Borges jogou muita bola no Portão e seu sonho era defender as cores do glorioso Clube Atlético Ferroviário. Ele corria pela ponta-direita como tufão em dia de tempestade – nada o segurava. Aos catorze anos foi trabalhar na empresa cuja sede ficava na Rua Barão do Rio Branco. Eram os anos 60 e o chefe era atleticano roxo. Pior, ficou sabendo que Zezinho era bamba na ponta e cortou o maior barato do garoto: treinar na Vila Capanema depois do expediente. Segurava o menino só de sacanagem. Resumindo, o pessoal da Vila deu ultimato: ou chega na hora ou não vem mais. Ele não foi mais. O coração Boca Negra partiu em pedaços.
Enquanto isso o chefe ficou de tocaia e na primeira oportunidade levou Zezinho para treinar na Baixada. Ele agradou, foi convidado a envergar a jaqueta atleticana, mas o coração Boca Negra falou mais alto. “Não vou trair nunca o meu Ferroviário”. E nunca mais Zezinho jogou bola. Como não podia gastar energia jogando futebol, Zezinho se aplicou em outro ramo: virou conquistador de mulheres. Um dos mais terríveis dos anos 60. Num sábado deste eu o encontrei no campo do Operário do Pilarzinho, numa partida entre os velhos jogadores, hoje com sessenta anos. Os velhos corriam mais que notícia ruim.
Depois do jogo, Zezinho me chamou para dar uma banda na redondeza que ele queria conferir se uma velha casa ainda estava de pé. Fui com ele. Meio para baixo do campo do Operário. Chegando num determinado lugar que para mim não tinha a menor importância, mas que para Zezinho parecia ponto de romaria, ele empacou e disse: “Demoliram a casa do meu amor!”. Levei um susto porque Zezinho é casado há mais de quarenta anos e vinha com aquela história de meu amor. Eu perguntei: “Você tinha uma amante na região, seu malandro?”. Zezinho é emotivo. Derrama lágrima por qualquer bobagem. Ele levou a mão aos olhos, já marejados e disse: “Foi minha primeira namorada”.
E me contou a triste história: “Ela me pediu tanto para tirar a honra dela e eu refuguei”. E foi na casa que não existia mais, mas que para Zezinho parecia que estava lá como um grande fantasma de um amor não consumado. Eu quis saber a razão de ele ter refugado e ele disse que ficou desconfiado. A mãe da menina – cujo nome era Anastásia – alcovitou. Deixou os dois no quarto e ainda espantava quem aparecia: “Os pombinhos estão namorando no quarto. Não atrapalhem!”. Com todo este apoio logístico, Zezinho achou que tinha treta na jogada e pulou fora: “A menina tinha dezesseis anos! Era uma teteia. Se eu fizesse aquilo eu teria que casar e não estava preparado”.
Ele estava certo. Quem cai em armadilha é galo bêbado. “Anastásia passou por mim e saiu intacta”, disse, quase chorando. Depois de respirar fundo, ele completou: “Mas a tia dela, duas primas e a irmã mais velha eu não perdoei”. Foi a fúria do tarado vingador. Enquanto a gente voltava em silêncio para o campo do Operário do Pilarzinho naquela manhã de sábado, para pegar o Inter II e ir embora, eu fiquei pensando que no final das contas, Zezinho não tinha muito que reclamar. Ele perdeu uma, mas ganhou quatro. Este resultado, seja no futebol ou no amor, não deixa de ser uma bela goleada. Mas é a velha história, todo gol sofrido dói como fogo no peito de um velho goleiro – no campo de futebol ou no campo do amor.