Um dos acontecimentos dentro de um campo de futebol que mais repercutem nas ruas é o frango do goleiro. Aquele gol que ele toma que ninguém, talvez nem a sogra do torcedor, levaria. Mas o goleiro levou. A torcida vaiou – a de seu time, porque a outra achou fantástico. E a semana dele, na melhor das hipóteses, será terrível. Na melhor das hipóteses porque tem gol que arruína uma carreira. Ainda que não seja um frango. O segundo gol que Barbosa levou na final da Copa de 1950 o transformou de forma injusta num pária. Se o time fosse campeão ninguém iria dizer que foi ele que conquistou a taça. Mas como perdeu, a culpa foi dele. Vida de goleiro é um calvário.
O caso mais recente de frango fatal aconteceu no dia 15 de maio deste ano, num jogo pela Taça Libertadores, quando Bruno, do Palmeiras, engoliu um franco com farofa e tudo, contra o Tijuana do México. Ele foi para a reserva. Ninguém mais lembra que ele existe. O goleiro. Porque o frango é inesquecível. O diacho é que ninguém sabe de onde veio a expressão frango para o gol defensável que o goleiro toma. Acredita-se que seja por causa da habilidade do frango de escapulir das mãos de seu perseguidor que o quer conduzir para a panela. Ele escapa com facilidade humilhante. E vai para o fundo do galinheiro.
Goleiro que leva frango fica sem o bicho. Não o frango, mas a remuneração informal que faz os jogadores dar a vida em campo. Pela pátria. A pátria monetária. Embora a expressão bicho não repercuta tanto nas ruas, sua origem não é tão misteriosa quanto à do frango. Não há certeza exata, científica, mas o crítico Anatol Rosenfeld, que produziu belo trabalho sobre negro e macumba no futebol brasileiro, diz que o bicho começou por volta de 1910. Os clubes, na tentativa de atrair habilidosos jogadores da periferia para reforçar os seus quadros, caso contrário não faria sentido os caras saírem da periferia para divertir os da elite aficionados por futebol, passaram a agraciá-los, em caso de vitória, com valores monetários que variavam de acordo com o resultado e a importância do prélio.
E qual era a tabela? A tabela seguida foi a dos prêmios do jogo do bicho. O jogador ganhava um cachorro (5 mil réis) por uma vitória normal, um coelho (10 mil réis) se o jogo foi duro, um galo (50 mil réis) se a partida era importante, uma vaca (100 mil réis) se era jogo de final e assim por diante. Os jogadores se esforçavam de olho no bicho porque, dependendo do êxito, ele podia ser gordo. Ou seja, de grande importância. Os clubes também arranjavam colocação em autarquias para jogadores que se destacavam, mas normalmente eles não precisavam desempenhar, era apenas uma forma de receber um salário para defender os principais clubes.
Rosenfeld critica as duas fórmulas porque elas desencaminhavam de profissões sólidas muitos jovens talentosos. E quando terminava a carreira futebolística, os jogadores eram deslocados para uma vida esquecida e marginal. O estudioso também destaca que o futebol no Brasil, desde o começo, embora muitos clubes se negassem a princípio a ter jogadores negros em suas fileiras, se tornou rapidamente um dos poucos mecanismos de ascensão social para os negros. O outro, já na época, era a música. De qualquer forma, ainda naquela época, se o goleiro levasse frango, ele ficava sem o bicho.