Don Federico Moretti não larga a mardita

O simpático Federico Moretti estava sentado na mesa ao lado no bar-restaurante e, como eu, estava sozinho, mas, ao contrário de mim, resmungava baixinho, como respondesse a íntimas indagações: “Io no largo a mardita”. E balançava a cabeça, olhava o copo, mas não bebia. Eu me lembrei, naquele instante, de um amigo hondurenho do começo dos anos 80. O nome dele era Vilfredo. Ele era homossexual, se apaixonou por um amigo nosso, mas tinha medo de confessar e perder a amizade do cara. E para sair deste impasse, enchia a cara nos bares. E quando enchia a cara, ele ficava bêbado, contemplava o copo e dizia: “Eu tento afogar minhas mágoas, mas as malditas sabem nadar”. Nunca esqueci a frase tão dramática e tão bem humorada.

Pois bem, Federico tinha aproximadamente 50 anos, bem alinhado e aparência que julguei, de forma injusta, talvez, de Marcello Mastroianni. Talvez fosse o cabelo em desalinho, talvez um aparente olhar de tristeza no qual se misturava um quase sorriso, como indicasse que por mais sério que o problema fosse, a vida ainda é mais importante, coisa assim. Não tinha aparência de alcoólotra, mas segurava o copo e balbuciava: “Io no largo a mardita”. Se ficasse de boca fechada, eu não ficaria curioso. Mas curiosidade mata, sei disso e fiquei quieto. Finalmente ele me olhou, sorriu como tivesse decidido alguma coisa, virou o copo pequeno na boca, levantou-se, chamou o garçom, pagou a conta e foi embora.

O garçom limpou a mesa e depois que Federico saiu eu tentei saber alguma coisa. “Quem era o senhor que estava sentado aí?”. O rapaz disse: “Don Federico Moretti”. Procurei esticar conversa: “Ele é alcoólotra?”. O moço disse que não. Minha curiosidade começava a parecer inconveniente, meio doentia. “Mas ele estava tomando pinga e dizendo que não consegue se livrar da mardita!”. O rapaz olhou para os lados e como ninguém prestava atenção em nossa conversa, ele se aproximou de minha mesa e fingindo que a limpava, disse: “Primeiro, não era pinga, era um Martini branco. Segundo, não era mardita, era Margita. Com g no lugar do d”.

Eu fiquei envergonhado. Fiquei com vontade de perguntar mais, mas achei que tinha esgotado a cota de indiscrição. O garçom foi geneneroso e não me deixou no deserto com aquele mistério enorme. “Margita Karanovic é bem mais jovem. É arquiteta que nasceu na Sérvia. Don Federico se apaixonou, mas agora ela quer casar. Ele quer continuar solteiro e namorando. Ela disse que se não tiver casamento, volta para a Europa. O coitado não sabe o que faz. Acha que está velho para casar, mas não quer ficar sem a Margita”. Depois do esclarecimento achei que tinha direito à última pergunta: “E como você sabe tudo isso?”.

O garçom respondeu que foi Don Federico quem disse. “Ele me perguntou dia destes se ele devia largar a Margita. Eu também achei que fosse a bebida e respondi que com moderação ele podia ir longe com ela”. Eu respirei aliviado. Não era o único a tropeçar naquele imbroglio mardito. E prometi não ficar prestando atenção em pessoas que falam sozinhas. Aliás, esses nomes estrangeiros costumam provocar constrangimentos. Eu me lembro de um mafioso italiano, Tommaso Buscetta, que levou os apresentadores do Jornal Nacional a pronunciar o nome de forma errada, porque a correta era considerada palavrão.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google