Os velhos boêmios sabem de cor e salteado a letra de Ronda. “De noite eu rondo a cidade/A te procurar sem encontrar/No meio de olhares espio/Em todos os bares você não está/Volto pra casa/abatida/Desencantada da vida/O sonho alegria me dá/Nele você está”. Uma letra que parece traduzir uma realidade noturna dos anos 60 e 70, quando ainda havia boêmios e mulheres apaixonadas por eles. Levei maior susto semana passada quando peguei taxi para ir ao Alto da XV e o motorista bom de prosa, o Adailton Mathias Scherer, com cara de felicidade, me disse que na noite anterior tinha faturado 500 reais de uma cliente. 150 da corrida e mais 350 para bancar o detetive. Isso mesmo. Coisa de louco.
A história que ele me contou foi a letra da música de Paulo Vanzolini. Uma madame entrou no táxi e perguntou: “Você topa ganhar uma grana, rapaz?” Taxista que foge de grana está louco ou doente. Adailton meio ressabiado respondeu que topava se fosse coisa legal e não fosse passar vexame. A princípio ele achou que a dona fosse maluca ou que estivesse a fim de fazer programa de natureza sexual. “Este negócio já aconteceu comigo”, garantiu. Se fosse, ele encarava porque a dona era uma madame com um corpo de primeira. Além de tudo, era chique: “E mulher chique tem um apelo todo especial. A gente se arrepia”. Mas não era isso.
A mulher sentou no banco traseiro e esclareceu. Ela queria dar flagrante no marido que passava a noite fora de casa e voltava na manhã seguinte com desculpa de que estava no trabalho. Aquilo deixou Adailton cabreiro: “Rapaz, foi um sufoco. Era o tipo de coisa que nunca fiz. A mulher me deu a fotografia do homem e lá fomos fazer a ronda por todas as casas de alta classe da cidade, atrás do marido dela”. O périplo incluiu de boates chiques a casas de swing. Adailton chegava, estacionava, entrava com foto na mão, olhava, conferia e saía. “Até aqui, nada”, relatava para a cliente. “Vamos para outra”, pedia ela. E foram. Uma por uma, o tempo passando, a madrugada chegando e eles fazendo a ronda.
Até que amanheceu e ela pediu para voltar para casa, sem encontrar o marido, abatida e desencantada da vida. “Eu fiquei morrendo de pena. Bonita, rica, mas sem felicidade conjugal e sem tranquilidade mental, até para uma noite de sono”, disse o taxista. Ele confidenciou que chegou uma hora que nem olhava direito o ambiente para ver se o marido da mulher estava mesmo em alguma daquelas casas. Ele entrava porque acertou o negócio, mas tinha medo de encontrar o sujeito e criar confusão. “Se o negócio esquentasse e a madame sumisse, quem ia pagar o pato ia ser eu”, disse, se defendendo.
Além disso, tinha um problema: “Sabe, se eu pedisse para ela desistir, eu acho que ela não ia desistir. Ela preferia encontrar o cara bebendo com outra a ficar em casa esperando ele chegar”. Então eu perguntei: “E se ela encontrasse o sujeito?” Ele riu: “Ah, rapaz, pode ter certeza, que os dois iam aparecer na capa da Tribuna do dia seguinte. E não ia ser coisa bonita não! O rosto dela era de tristeza e fúria. Aquilo não ia sair barato para o sujeito”. Eu fiquei quieto. A letra poderia ser de música antiga, mas o roteiro foi escrito há poucas semanas aqui em Curitiba. Quando eu cheguei ao Alto da XV eu fiquei pensando quantos mistérios estes taxistas da cidade escondem em suas memórias. Coisa de louco!