Ele é estranho. Mas esta é uma definição polêmica. Então vamos dizer que é excêntrico, de cabelos penteados e expressão alucinada. Eu o vejo quase todas as semanas correndo, furibundo, como perseguido por uma alcateia invisível de lobos. Domingo, fazia sol e ele estava de blusa abotoada até o pescoço – correndo. O clima para ele, às vezes, é uma abstração. Em outras, não: quando chove, corre de guarda-chuva. Às vezes corre com bolsa a tiracolo – segura a bolsa como se ela tivesse algo valioso. Ele está sempre com uma urgência aflita.
Já o vi fazendo exercícios. No parque, ele desvia das pessoas como se elas o ameaçassem. Há mais de dez anos o vejo com frequência nas proximidades da Mateus Leme, entre o Centro Cívico e o Abranches, quase sempre na ciclovia, quase sempre correndo, quase sempre assustado e furibundo. Uma vez chovia e ele apareceu solitário com o guarda-chuva, como se correr fosse tão imperioso quanto respirar. Nunca me passou pela cabeça falar com ele, porque, aparentemente, ele não quer falar com ninguém. No entanto, um amigo, ontem, me passou um vídeo, dizendo ser de um maluco e informando que o vídeo bombou na internet. Abri, era ele, o sujeito furibundo, com um enorme sorriso, acanhado, envergonhado, dando entrevista na Rua XV para um apresentador de programa popular. Ele se apresentava como um homem de 47 anos, virgem, à procura de mulher para uma aventura sexual. Ele não cogitava casamento, porque, segundo ele, “o casamento está falido”.
Por causa da aparência, eu pensei que ele tivesse nome polaco, cigano ou húngaro, como Waclaw, Zlato ou Kazmer. Mas ele se chama Antonio – foi o que disse. Estava de blusa verde, bolsa a tiracolo, cabelo penteado e sorria envergonhado. Dalton Trevisan já disse que em cada casa da cidade há um louquinho trancado no sótão – ou no porão. Eles escaparam e correm pelas ruas. Foi então que Antonio revelou um detalhe que eu não tinha reparado: ele tem os olhos verdes, trunfo precioso para conseguir uma dona disposta a tirá-lo da condição virginal.
Um homem de 47 anos, que não fez votos de castidade e ainda não deu uma bimbada tem motivos para ficar furibundo. Eu que tinha até certo temor de Antonio, fiquei com pena. Afinal de contas, bimbar é bíblico, agradável, gostoso e necessário. Está em Gênesis, 1, 28. Naturalmente tem efeitos colaterais, como a promiscuidade, a lascívia e a superpopulação. Mas o autor do Gênesis não disse para exagerar. E como Antonio nunca fez, ele tem crédito na praça. E procura garota de 18 a 28 anos. O cara é virgem e exigente. Ele também não quer mulata. Virgem e preconceituoso. Já começo a achar que Antonio vai passar pela vida sem praticar o coito. Coitado. Ele reconhece que hoje em dia não é tão difícil, assim: “Hoje em dia está tudo liberado”. Mas ninguém liberou nada para ele e pelo jeito não vai liberar. A conclusão é óbvia: “Acho que vou ficar para titio”.
Este destino trágico não chega a abalar a sua existência. “Se não aparecer ninguém, vou curtir a minha solidão”. Conclusão poética e melancólica. Na próxima vez que eu o vir correndo feito maluco, eu vou achar que ele corre atrás de um pedaço de felicidade. Que corre atrás do impossível corpo de uma mulher. Que foge rindo dele, de seu desejo, de seu preconceito e de sua timidez.