Na manhã de ontem dei uma passada na Rua XV para comprar o último número da coleção grandes pintores brasileiros, dedicado a Heitor dos Prazeres, que além de pintor e antes disso, foi compositor popular no Rio de Janeiro. Ele começou a pintar meio tarde, aos 39 anos. E foi um dos expoentes do estilo primitivo, também conhecido por naïf, aquele que parece pintura de criança, mas que não é tão simples assim. E é internacional – vários países têm pintores neste estilo. Achei justo que se coloque numa coleção de pintores relevantes um representante desta corrente e ao mesmo tempo um representante negro.
Mas folheando o livro, eu fiquei admirado com a foto de Heitor dos Prazeres logo no começo. Ele pinta em seu atelier ou em sua casa. Até aí, tudo bem. Mas o homem está elegante, elegância que não combina com pintor em seu estúdio. Pintura é trabalho e produz sujeira. A princípio, achei a foto artificial. Ninguém pinta com aquela pinta. Ele está com pincel, piteira e relógio – se bem que homem antigo só tirava relógio para tomar banho. Além disso, tem papagaio no ombro. O que o papagaio faz ali não tenho a menor idéia. Eu já ouvi falar em papagaio de pirata, mas papagaio de pintor foi a primeira vez. Outro detalhe elegante me chamou ainda mais atenção: a abotoadura na manga da camisa.
Nem sei se hoje em dia existe abotoadura – provavelmente deve existir porque ela se transformou em símbolo de poder, mas certamente está cara. Alguns homens poderosos usam abotoaduras. Mas ela já foi item popular, embora elegante, no vestuário masculino. Eu me lembro que ao fazer dezesseis anos ganhei abotoadura de presente de minha avó. Veio numa pequena caixa como se fosse joia. Eu fiquei simplesmente fascinado. Tão fascinado fiquei com o presente de minha avó que por um momento eu me esqueci de um detalhe fundamental: eu não tinha camisa de mangas compridas para usar com a abotoadura e ela, lamentavelmente, não funciona com camisa de mangas curtas.
Mas não esquentei a cabeça. Se minha avó deu a abotoadura, certamente iria providenciar a camisa. O que acabou acontecendo. Eu fiquei adolescente justamente na transição da queda de alguns itens elegantes do vestuário, quando a avacalhação virou moda, uma contribuição atribuída aos beatniks e aos hippies. Depois disso, quem usasse abotoadura era condenado ao deboche por todos de sua idade. E, naturalmente, ninguém quis correr o risco. O mesmo destino teve a gravata e o chapéu. A primeira passou a ser usada em ocasiões extremas, como casamento e a morte. E o segundo apenas por extravagantes.
Foi então que entendi o recado de Heitor dos Prazeres. Ele passou a imagem de que embora sambista e de origem humilde, era um sujeito elegante. E a elegância não tem idade, não tem local e não tem condição social. Tanto que os sapeurs do Congo se refugiam do triste cotidiano numa elegância extravagante, divertida e glamurosa. Aliás, a elegância tem muito a ver com o bom humor. E a piteira, que é item elegante, também é item bem humorado. Principalmente nas mulheres. Não apenas nas mulheres fatais. A cena de Holly Golightly com um vestido preto e uma enorme piteira permanece como ícone de elegância e charme. E de bom humor. Uma cena que inspira até hoje, porque a elegância é bacana e eterna.