Andando pelas praças e ruas, o pedestre ouve frases que intrigam. Caminhava pela Praça Santos Andrade e um grupo de colegiais barulhentas, algumas com uniformes do Colégio Estadual do Paraná, azul e branco e outras de escolas próximas, falavam alto, quase ao mesmo tempo, numa algazarra que não irritava. Talvez porque fossem jovens bonitas, saudáveis e alegres. Talvez porque os jovens, e as garotas ainda mais, são barulhentos, cheios de vida, falantes. E isto é bacana. Mas uma delas soltou uma frase, em tom de censura, na qual fiquei pensando depois que elas se foram: ‘Me chame de Jude ou de Gertrude, mas nunca de Gegê‘.
Eu pensei que algumas pessoas não gostam de seus nomes – ou, se gostam, são conhecidas por outros. Não me refiro àqueles nomes bizarros de uma famosa lista de nomes estranhos como Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida ou o Necrotério Pereira da Silva. Falo de pessoas de nomes normais, mas que ficam conhecidas por apelidos ou diminutivos e poucos sabem seu nome verdadeiro. E isto não ocorre só no Brasil. O ex-presidente americano Jimmy Carter (foto) se chama James Earl Carter. O nome com o qual ficou conhecido é um diminutivo. O nome de Lula é Luís Inácio e o do governador do Paraná é Carlos Alberto.
O nome de Júnior, que jogou no Flamengo, é Leovegildo Lins da Gama Junior e o de Lima Duarte, o ator, é Ariclenes Venâncio Martins. Assim como o nome de Silvio Santos é Senor Abravanel. Em os setores da atividade humana vamos encontrar pessoas que deixaram de lado o verdadeiro nome e foram ou são conhecidas por outro. A minha avó se chamava Filomena, mas todos a chamavam de Dona Flor. Fui descobrir depois que meu avô achava que o nome de minha avó era Fulomena. E abreviou para Fulô. E como na Bahia chamavam flor de fulô, as pessoas deduziram que o nome de minha avó era Flor. Que, aliás, embora tivesse este nome e fosse baiana, só teve um marido.
Por esta razão, eu achei que Gertudes tinha direito de ser chamada de Jude, embora fosse arriscado dizer que não gostaria de ser chamada de Gegê. Apelidos que as pessoas odeiam são os que mais pegam – e os que desejam são os menos grudam. Em 1966 eu tive um apelido que apareceu subitamente e depois sumiu. Careca. Meus amigos deixavam o cabelo crescer e eu também queria deixar, mas os meus avós eram contra. Eu, no desespero de minha puberdade, queria apenas ser desejado pelas garotas de minha idade, que reviravam os olhinhos quando viam um cabeludo – claro que eu queria ser cabeludo. Desafiei as ordens de casa e cortei as pontas do cabelo, preparando a futura juba.
Minha avó mandou raspar tudo. Ela exagerou na expressão, ela queria corte americano, do tipo soldado do exército. Levei ao pé da letra e voltei parecendo prisioneiro. Careca total. Ela caiu dura. E nunca mais me pediu para cortar o cabelo. Por algum tempo fui chamado de Careca. Alguns meses depois um sujeito me chamou de Careca, eu estava cabeludo. O apelido morreu ali. No entanto, muitos ficam até a morte com o apelido. E parecem que dão sorte e dinheiro para seus donos, embora sejam estranhos, como o do Ratinho. Alguns servem para denominar homens e mulheres, como Xuxa. A realidade é que boa parte da humanidade é conhecida por outro nome que não o da certidão de nascimento.