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O escritor Ben Jonson escreveu no século 17 em “A Mulher Silenciosa” que “a feiura é um campo sem grana, uma planta sem folhas ou uma cabeça sem cabelos”. Não sou tão erudito no assunto. É que entre centenas de e-mails que caem na minha caixa eletrônica todos os dias às vezes pinga coisa interessante. Como o de um cirurgião da Sociedade Brasileira de Cirurgia e Restauração Capilar, Otávio Boaventura. Como se pode notar, ele se revestiu de certa erudição para dizer que ninguém “se tivesse escolha, optaria por perder os cabelos”. Está certo. Só que mais adiante pega pesado e garante que “os fatores emocionais envolvidos em viver com a falta dos fios são grandes”. Mas se um sujeito perde o cachorro num atropelamento ele também sofre. As causas que levam ao sofrimento são muitas e complexas.

Ele chama a calvície de alopecia (embora quem a tenha não seja alopeta e sim careca) e diz que a sociedade vê a prosperidade capilar como sinal de juventude e boa saúde. Ele diz que não se deve tirar sarro dos carecas, porque é cruel “denegrir alguém que já se sente dolorido”. E dispara cinco argumentos para afirmar que careca sofre de problemas emocionais. Primeiro, a calvície faz a pessoa se sentir mais velha; segundo, insatisfação com a aparência; terceiro, a timidez e perda de autoconfiança; quarto, o careca tem impactos negativos na vida social; quinto, ele é motivo de piada e humilhação. Ele diz que os carecas não gostam de ser fotografados. Tudo bem. Respeito opinião. Claro que se um careca pudesse ser cabeludo, a maioria queria ser cabeludo e provavelmente ninguém ia escolher ser careca.

Mas não acho que o bicho seja feio. Eu fui entrevistar um jogador de futebol aposentado e bem sucedido e reparei que ele corta o cabelo careca. Podia ser cabeludo, mas escolheu ser careca. Pensei em perguntar a opção, porém achei que não era da minha conta. Depois da entrevista fui para o centro da cidade e encontrei um monte de mendigos cabeludos. Os caras estavam com a estima lá embaixo com toda a cabeleira. E existem outros casos: dizem que o ator Yul Brinner teve que raspar a cabeça para fazer o papel de faraó em “Os Dez Mandamentos”. Ele se deu tão bem que os chefões de Hollywood perguntaram se ele não queria continuar careca, porque careca com estilo não tinha ninguém em Hollywood, mas cabeludos cheios de estilo tinha um monte. Ele seria apenas candidato a mais um. Brinner não pensou duas vezes e virou careca da noite para o dia.

Outro careca que foi um sucesso foi Telly Savalas que fez o antológico detetive Kojak. E assim por diante. E mais: tenho amigos carecas que são bem humorados e outros cabeludos que são mal-humorados. E também o vice-versa. Eu acho que existem muitos fatores que deixam um sujeito feliz e se ele tiver estas coisas e for careca, ele não vai dar importância para a questão capilar. Coisas como saúde, dinheiro, namoradas bonitas, de preferência umas dez, bons amigos, bem sucedido na profissão, admirado e não vou alongar a lista porque ia faltar espaço. Claro que o cirurgião citado acima tem que vender o seu peixe. Faz parte do negócio. Mas não acho sensato levar seus argumentos ao pé da letra.

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