O pai de Leônidas Evangelista tinha dinheiro. Por isso, quando estudante, ele ficou em dúvida sobre qual carreira seguir. Pensou em ser engenheiro ou médico, mas acabou se formando em direito. Não advogou, porque não precisava. O pai era rico e deixou casas de aluguel. Evangelista até hoje vive de rendas com o reforço de grana da Previdência sob a rubrica de “benefícios”. Tudo somado dá para viver sem aperto.

Como não trabalha e também não casou, duas atividades que enchem a cabeça de qualquer pessoa com preocupações e problemas a ponto de ela dormir com a cabeça cheia de grilos, Evangelista encheu a cabeça de bobagens. Sua preocupação há cinco décadas é ganhar na loteria, “para resolver definitivamente os problemas financeiros”. Fora isso ele ocupa o tempo tentando resolver enigmas históricos que ninguém resolveu.

Evangelista não é grande leitor. Ele lê um pedaço do livro e sem paciência adivinha o resto. E como adivinhou, perde o interesse. Durante muito tempo achou que Hitler morava em Bariloche, que os americanos sabiam, coisa e tal. Na maior dedução. Parou com isso quando contabilizou a data de nascimento do Führer e concluiu que o cara morreu secretamente em 1975 com 86 anos se é que esteve vivo depois de 1945.

Numa tarde de quinta-feira ele apareceu na Boca Maldita com uma conversa mole. Valentim que, ao contrário de Evangelista, sempre deu duro na vida, ouviu a lorota: “Foi bom te encontrar. Você sabia que os assassinos misteriosos morreram?”. Valentim não sabia de que ele falava. Evangelista explicou: “Mataram o Castelo Branco, porque aquilo foi assassinato”. E continuou: “Mataram o Costa e Silva. Aquilo foi serviço de primeira”.

Mais: “Sobre Juscelino, ninguém tem dúvidas. Sem contar João Goulart, que foi envenenado. Carlos Lacerda, só recentemente começaram a admitir que ele tomou sopa preparada”. Existem especulações, mas nenhuma prova. Isto não abala Evangelista. Para ele, prova é frescura e os assassinos misteriosos eram especialistas. E como não foram descobertos, Evangelista concluiu: “Eles morreram todos”. Ele chegou a esta conclusão porque “Sarney está vivo, Collor está vivo, FHC está vivo e Lula está vivo”. Valentim argumentou que Itamar morreu. “Morreu de câncer com 81 anos. Assassinos não matam ninguém de câncer e muito menos nesta idade”, concluiu Evangelista.