O certo é que até hoje eu tenho dúvida se o Dr. Ambrósio Parente Penteado Junqueira era médico ou se era mais um maluco andando pelas ruas da cidade. Mas a cena aconteceu num expresso entre as estações tubo Petit Carneiro e Alferes Poli, numa fria manhã de maio. Alguém se levantou do banco, o ônibus estava cheio e sobrou lugar. O velho de calça branca e paletó branco de linho foi apressado para sentar no banco. Não precisava dizer, mas ele disse: “Esse lugar é meu!”. Tinha cara de idoso, o lugar era dele. Ponto final. Ninguém ia discutir. Assunto encerrado. Mas o velho em vez de sentar no lugar vago, sacou de um lenço do tamanho de uma fronha e começou a abanar o assento. Acintosamente. Ele se anunciou sem ninguém perguntar: “Meu nome é Dr. Ambrósio Parente Penteado Junqueira”.  

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Como a expressão dele era semelhante à de Tony Clifton, aquele farsante – e a voz também era muito parecida – e o nome oligárquico, era oligárquico demais, eu fiquei com a impressão inicial de que o sujeito era um artista, um canastrão ou um maluco. As pessoas olharam de imediato para o cara que levantou – ele ainda estava no ônibus. Será que soltou pum? Se fosse estava certo em abanar, desde que discreto. Foi constrangedor. O sujeito olhou para o velho abanando o banco que ele acabou de deixar. Ele deve ter cogitado a hipótese de dar um pescoção no velho. Ele balançou a cabeça, certamente considerando que não valia a pena estragar o dia por causa de um estranho acintoso. Ele saiu e outras pessoas entraram e passaram pelo Dr. Penteado como se ele não existisse. O homem disse: “Se todos fizessem isto, ninguém pegaria doenças no ônibus. É preciso higienizar o ambiente!”.

Uma senhora se virou para mim e me olhou com expressão de fúria. Ela sentia-se aviltada. Um operário riu. Uma estudante bonita com mochila do Colégio Estadual do Paraná foi para um lugar no ônibus distante da cena. E o Dr. Penteado continuava abanando e explicando o seu ato: “Estou matando os germes, antes que eles acabem com o mundo”. A velha que me olhou, disse: “Velho babaca!”. O velho ouviu e respondeu: “Babaca uma ova! Eu sou o Dr. Ambrósio Parente Penteado Junqueira. E se vocês seguissem minhas lições de higiene o mundo seria melhor”. Por fim, o operário resolveu sentar no lugar que estava vago. O velho percebeu a intenção do operário e sentou antes, para não perder o lugar. Acabou a discussão. Acabou a espalhafatosa lição de higiene do Dr. Penteado.

O operário se sentiu lesado: “Se alguém internasse este maluco num sanatório, ele não ficaria por aí todo cheio de frescura”. Na estação central eu desci e fui andando pela Rua XV em dúvida se aquele homem era médico, maluco ou pascácio. De qualquer forma, ele não estava de todo errado. Certas medidas preventivas são necessárias para evitar contágios – é um princípio básico de controle de epidemias. Até um beijo, que é gostoso, pode contagiar, com exceção dos beijos da Ava Gardner e da Heddy Lamarr – aqueles beijos eram revigorantes. Mas Dr. Penteado foi espalhafatoso. E se teve boas intenções, elas não foram bem interpretadas. Não basta ter boas intenções. Como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. É preciso fazer a coisa certa. E o velho não fez. Se tivesse feito, as pessoas no ônibus não teriam ficado furiosas.

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