A rua estava até calma naquela área do Bacacheri, embora fosse um fim de tarde. A professora pedalava a bicicleta, enquanto, perto da esquina, uma mulher num carro – Space Fox, ano 2013, cor grafite metálico – dirigia em velocidade normal. Ou seja, ela não podia ser acusada de excesso de velocidade. Mas a condutora, uma mulher bonita, que ia buscar o filho na creche, dirigia e falava ao celular ao mesmo tempo. Ou seja, a malabarista estava com uma mão no volante e outra grudada no celular ao ouvido. Prestava atenção no trânsito e na conversa. É o tipo de coisa que normalmente provoca meleca.
E ela aconteceu: ao virar o volante com uma mão para entrar na rua em que a professora andava de bicicleta, a bonitona não conseguiu fazer a manobra correta, perdeu o controle do veículo, foi para cima da professora, derrubou-a na rua e avançou sobre a calçada, onde havia uma caçamba, que serviu de anteparo para uma condução imprudente. Com a violência do choque, a caçamba virou. Felizmente, a professora sofreu apenas escoriações – talvez porque a velocidade do carro não fosse grande e também porque foi atingida de raspão. Ela se levantou assustada e foi ver o que aconteceu com a bonitona.
A bonitona também estava assustada, embora com ela, da mesma forma, não tivesse acontecido nada grave. Mas o Space Fox, este sim, ficou bem amassado. Carro novo é muito sensível. A bonitona desceu rapidamente, viu aquilo, levou as mãos à cabeça e disse como visse um defunto: “Meu Deus do céu!!! Meu marido vai me matar. Eu amassei o carro dele. É um carro novinho em folha”. Um homem de nome José Luís de Souza ouviu o barulho da colisão, se aproximou, viu a cadeira de bebê vazia no banco de trás e gritou: “O que aconteceu com a criança, dona?”. A mulher continuou ainda em estado de choque balbuciando: “O carro do meu marido. Ele está amassado. Meu marido vai me matar”.
José Luís: “E o bebê? O que aconteceu com ele?”. Então a bonitona olhou para o banco de trás do carro e disse: “Ele está na creche. Eu ia buscá-lo”. José Luís ainda disse: “Se ele estivesse aí, provavelmente estaria morto com o choque do carro na caçamba”. A mulher parecia não se impressionar com a terrível possibilidade. “É. Mas ele não estava”. A professora da bicicleta se aproximou ainda assustada e disse: “A senhora quase me matou, sua maluca!”. A bonitona olhou a professora, era uma senhora loira de quase cinquenta anos e disse apenas: “Desculpe, foi sem querer”. A professora ainda insistiu: “Tudo isto aconteceu porque você estava dirigindo falando ao celular. Isto não se faz!”.
Como só havia a professora nas proximidades no momento do acidente, a bonitona preferiu mentir. Afinal, era a palavra de uma bonitona contra a de uma velha professora: “Não, a senhora não viu direito. O volante travou. Foi isso. E pare de falar besteira! Quem é a senhora para me acusar?”. A professora de atropelada e vítima, passou a acusadora e mentirosa. Vinte minutos depois, o maridão chegou esbaforido e nem reparou na mulher assustada. Ele berrou: “Sheila, sua maluca, o que você fez com o meu carro novo?”. José Luís balançou a cabeça e disse: “Acho melhor o senhor processar a caçamba. Afinal de contas, foi ela que aprontou tudo isto. As caçambas estão cada vez mais imprudentes”. Uma cena surrealista.