Entrei no ônibus para o Água Verde. Novo com assento estofado, confortável, meio elétrico meio gasolina, que faz uma viagem gostosa. Por um instante a gente não tem pressa de chegar ao destino e observa pela janela ampla a cidade que desfila diante de nossos olhos. A cidade é linda, o dia estava bonito, mas quando aparece uma loira linda, bem vestida e cheirosa, os nossos sentidos se desviam para a loira. Era bonita, meio baixinha, mas simpática e sentou ao meu lado – se o começo de tarde estava bacana, ficou melhor.
 
A loira tinha cabelos amarrados, estava maquiada com sobriedade, vestia com elegância discreta: sapato cor-de-rosa, calça jeans, camiseta preta com decote generoso deixando à mostra parte superior dos seios. Sobre a camiseta preta uma camisa cor-de-rosa forte aberta na frente, com mangas arregaçadas. Como nada é perfeito, uma aliança enorme na mão esquerda denunciava: a loira era casada. E mais um detalhe: dois brincos em argola, porque como ela declarou, “de brinco me sinto outra, bem melhor”. Por mim, tirando a argola na mão esquerda, estava tudo cem por cento.

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A loira veio com duas amigas, que ficaram em pé no corredor ao seu lado: uma mulata gorda de branco que me levou a achar que era enfermeira e uma morena também com aliança na mão esquerda, vestida com um conjunto preto e bolsa bonita, tipo Louis Vitton. Não me esforcei para saber se era legítima ou falsa. A garota de preto, morena bonita, mas recatada e discreta, tinha o semblante triste: “Ai guria, eu estou tão chateada!”. Ela contou que fez exame para tirar carteira de motorista, fez tudo certinho, mas foi reprovada. “Sabe o que eu senti? Que tinha cota de reprovação e me escolheram”, contou.

A loira disse: “Coisa estranha, eu até passei por cima do meio fio e fiz coisa errada e passei”. Na hora pensei: “Qualquer instrutor do sexo masculino com um mínimo de libido à flor da pele não reprovaria a loira. Quanto à morena, se tem cota de reprovação, bem alguém tem que pagar o pato”. A conversa foi nesta direção. Achei que a loira foi beneficiada e a morena se ferrou sem motivo. Isto acontece. E não devia acontecer. O cidadão comum reclama por justiça, mas no dia-a-dia comete injustiças das mais variadas. Institucional ou pessoal. O certo é que o mundo está cada vez mais injusto.

Ainda ontem, um velho barbeiro, octogenário, estacionou seu carro num lugar destinado a idosos. Quando chegou encontrou multa. O velho pegou a multa e falou com a moça que distribui multas pela cidade: “Minha filha, por que fui multado?”. Ela respondeu: “O senhor estacionou no lugar destinado a idosos”. O velho barbeiro respondeu: “E eu sou o quê, minha filha? Sou adolescente?”. Ele mostrou os documentos, mas a representante da injustiça oficial não deu bola. E ameaçou o pobre velho com outra multa se ele não caísse fora. Estes dois pequenos exemplos, entre muitos outros por aí, mostram que vivemos sob o signo da injustiça e da intolerância.

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Elas aparecem nas pequenas coisas que evoluem para as grandes e transformam os lemas da Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, num sonho distante. Em vez de evoluir, a humanidade regride enquanto entope as ruas de grosserias, injustiça e arrogância. São coisas como estas que estragam um dia, por mais lindo que seja e acabam com a esperança das pessoas comuns.