Nós dois estávamos sozinhos no ponto esperando o ônibus para ir ao centro da cidade. Eu acho que ela fez de propósito: ergueu o braço direito para acenar para alguém que passava de carro na rua e então eu vi algo raro hoje em dia até em pedreiros mais rudes dos rincões inóspitos. A garota tinha um enorme sovaco cabeludo, negro, de fios finos em meio a outros encaracolados como cipós de uma floresta capilar. Ela baixou o braço lentamente para eu ter a certeza de que não havia me enganado. De que vi o que tinha visto – o seu sovaco cabeludo. Além disso, seria impossível não reparar porque usava blusa tomara-que-caia que deixava os ombros e os braços nus. Ela ainda usava boina e óculos escuros e fiquei pensando que seus olhos me perscrutavam por trás das lentes escuras.
Fazia tempo que eu não via um sovaco peludo. E vê-lo ali no ponto não foi um choque imediato. Foi uma surpresa. Daquelas que a gente tem quando vê na rua um amigo com o qual não se encontra há três décadas e ainda o reconhece. O tempo entre uma aparição e outra é tão grande que o encontro em vez de provocar alegria, causa constrangimento. A primeira coisa que a gente pensa é: ‘O que eu vou dizer pra ele?‘. Realmente, a gente não tem mais nada a dizer. A não ser relembrar passagens soterradas na memória. Foi o que eu senti vendo aquele sovaco. Havia entre os pelos do sovaco e os cabelos da cabeça uma notória harmonia cromática.
Ela percebeu que eu vi o sovaco dela e ficou me olhando por trás dos óculos escuros. Eu diria mais. Ela ergueu o braço para que eu vir o seu sovaco, como não fizesse o menor sentido manter aquela densidade de pelos sem ser apreciada por olhares sorrateiros. Ela sorriu. Não foi um sorriso sensual: foi provocador, como o de um agitador social querendo quebrar vitrines. Como quisesse dizer: ‘Eu tenho um sovaco cabeludo e você não tem nada com isso‘. E ela estava certa, aquele sovaco não era um empecilho para o desenvolvimento social e não ia atrapalhar a minha vida. Mas por que eu me espantei? A resposta é simples: porque fazia tempo que eu não via um sovaco cabeludo, ainda mais numa garota jovem. Aliás, para ser sincero não me lembro da última vez que vi uma garota jovem e razoavelmente bonita com um sovaco daquela natureza.
Imediatamente eu desviei os olhos dos pequenos olhos inquisidores por trás dos óculos escuros, olhei a rua e pensei: ‘Eu não deveria dizer nada. Na realidade, eu nem devia ter olhado. Agora que eu olhei, eu tenho um problema‘. A imagem do sovaco peludo da garota estava em minha cabeça como a sequência de um gol inesquecível. Meio sadicamente eu fiquei com vontade de me virar para dar mais uma olhada, com a curiosidade de alguém que vai a um zoológico e fica encantado com um bicho exótico. A minha sorte foi que o ônibus chegou. Era daquele ônibus pequeno no qual o motorista além de dirigir, assobiar e chupar cana, também cobra a passagem. A garota entrou primeiro e mais uma vez ergueu o braço, desta vez para pagar a passagem. Agora eu vi o fenômeno por outro ângulo e vi também a cara de espanto do motorista. Ele com certeza não vira aquilo nos últimos trinta anos.
Ele olhou para mim e eu fiz gesto de quem não tinha um sovaco tão cabeludo. Eu paguei a passagem, passei a catraca e achei melhor esquecer o assunto. Mas um sovaco cabeludo a gente não esquece assim tão facilmente.