Se Madalena Bibikov existe – ou nunca existiu – o certo é que ela não me sai da cabeça. Desde aquele fim de tarde na volta para Curitiba, quando eu perguntei para o Allan Costa se ele acreditava na história que ouvimos. E ele, depois de um riso irônico, respondeu: “Eu acho que esse pessoal que mora muito tempo no meio do mato fica meio estranho. Só pode”. Sim. Esta era uma hipótese. Mas eu gostaria de saber de onde saiu a história e porque o Sr. Bernardo Bibicov tinha uma expressão de quem acreditava naquilo que ele falava. Eu nunca vou saber. Porque eu não pretendo voltar lá.
Tudo aconteceu numa manhã destas quando procurávamos pelo lado norte de Curitiba a chácara de um velho goleiro, que fica numa região cheia de pequenas estradas de terra e de vegetação que se não é nativa, pelo menos é fechada, dando a impressão de falsa floresta. Nós nos perdemos no labirinto rural. E paramos numa encruzilhada sem saber que caminho tomar. Enquanto Allan tentava se orientar, eu olhei a pequena casa de madeira numa pequena propriedade, uma casa pintada de azul, num estilo que diferia dos que existiam em profusão nos arredores da cidade há sessenta ou setenta anos. Ela estava fechada, era uma casa muito velha, semelhante às que vi nos arredores de São Mateus do Sul, há vinte anos, quando estive naquela cidade.
Eu fiquei curioso em saber o que havia ali dentro além de ratos e moveis velhos. Eu caminhava e fui interrompido por um homem barbudo – que vim a saber ser o Sr. Bernardo Bibicov – de pele curtida, sem talento para o bom humor. Ele se aproximou e disse: “Se eu fosse o senhor, não entraria aí. O que tem aí não é da sua conta”. Eu recuei e acho que ele se envergonhou da grosseria e por esta razão explicou: “Esta a casa é de Madalena Bibicov”. Eu não perguntei quem era e ele disse que era a sua tia, que nunca se casou e por seus cálculos estava com 114 anos. “E ela vai viver mais”.
Allan chegou e ouviu o resto da história. “Minha tia tem medo da morrer. E por esta razão ela encolhe”, contou. “Eu calculo que agora ela tem entre oito e quinze centímetros”, disse ele. A história era absurda se levar em conta que Madalana Bibicov quando jovem era loira de um metro oitenta. Enquanto os irmãos e irmãs morriam, ela encolhia. O Sr. Bernardo Bibicov disse: “Eu não tenho a menor dúvida de que morrerei antes dela”. Ele acrescentou que ela nunca foi um estorvo para os familiares porque quanto mais encolhia, menos comia: “Para um corpo pequeno não é preciso muito alimento”, disse.
Quando a tia do Sr. Bibicov chegou aos 92 anos, a família achou por bem deixá-la na casa, para algum descuidado não pisar nela. E a casa ficou fechada. “Nós sempre deixamos comida e nunca deixamos estranhos se aproximar”, disse. Como eu não fiz nenhum comentário, ele acrescentou, como se desculpasse: “Nós também não entramos, pois temos medo de pisar na tia. Isso seria fatal”. Allan concordou: “Certamente seria terrível”. Allan, acho que por respeito, fez cara de quem acreditou na história do Sr. Bernard. Eu fiz cara de quem não acreditou numa palavra. O diacho é que na volta, Allan esqueceu a história e ela não saía de minha cabeça. Ainda que a razão me convencesse do contrário eu não deixava de pensar numa pequena velha assustada se escondendo da morte da velha casa.