Há mais de 50 anos eu frequento as feiras livres. E todo este tempo elas tiveram a mesma estrutura: um aglomerado caótico de barracas com os mais variados produtos. Sempre foi assim por todo o país – em Curitiba não seria diferente. Por todos estes anos a modernidade mudou a cara do Brasil, de rural para urbano, de pequenas cidades para metrópoles, mas não tocou nas feiras livres. O alarido e o burburinho das feiras nos remetem à infância. Mas, agora, percebo que também nas feiras livres algo acontece. Uma modernidade fria domina, lentamente. Hoje barracas até parecem butique, têm cartão Visa. Antes o cara ia ao banco tirar dinheiro para ir à feira, agora paga com cartão de crédito ou débito. E os preços das feiras antigas eram em conta; hoje os sacolões dos supermercados competem em preço.
As barracas de lona com estrados de madeira onde as frutas, legumes e outros produtos são dispostos, dão lugar, já há algum tempo, a caminhonetas adaptadas para comércio ambulante. As pequenas caminhonetas Kia, Iveco e Mercedes, brancas, ficam com metade dos pneus na calçada e outra metade na rua, para abrir espaço aos consumidores. Algumas, como a do peixeiro, oferecem estrado para o freguês subir e ficar ao nível do vendedor. O vendedor de linguiça, salames, queijos e outros frios ingressou na modernidade. A carroceria de sua caminhoneta é na realidade um pequeno armazém ambulante. Ele chega cedo, abre, expõe os produtos, vende e ao fim da jornada, fecha tudo, vai para a cabine e leva embora seu estabelecimento, sem demora e sem lero-lero.
Tudo mais prático, asséptico, moderno. Sem contar que numa chuva, o sujeito está pronto para cair fora. No entanto, há uma aparente frieza, talvez por causa dos metais cromados, talvez pela ausência do charme da antiga barraca de lona, herança da remota Idade Média. Até o pessoal da Nippon Pastéis abandonou a adorável confusão ao redor da barraca de pastel para ingressar na era da Van Barraca. Mas, algo se perdeu no caminho. Agora tem ficha no caixa – aliás, tem cartaz pedindo para pagar e pegar ficha no caixa. Tem boleto. Com alerta: válido somente para este dia. O último boleto de meu pastel na feira do Pilarzinho foi o de número 14.527. Burocraticamente perfeito.
Antes era no olhômetro. E funcionava. Talvez por isso fosse fascinante. A japonesinha continua bonita, atenciosa e vestida com avental branco. Mas eu gostava mais quando ela ficava atarantada na barraca e não em cima de um pedestal, parecendo fria pastora pentecostal num púlpito oferecendo salvação ao consumidor através do pastel especial. Algo mudou sem ganho ou perda para o consumidor. Talvez seja isso: qual o sentido de mudar uma coisa que na prática não muda nada? É a modernidade. A modernidade é uma chata que mete o bedelho.
Até os cães farejadores de restos de pastéis sumiram. Eles davam um tom canino para a algazarra. A presença dos cães nos humaniza. Mas eles voltam. Os cães são fiéis. Agora fica aquela coisa estranha. As pessoas fazem fila e esperam com fichas na mão o pastel sair. As que não levam produto para casa, sentam na pequena mureta, como num desajeitado piquenique. Ficou visualmente triste, embora o sabor do pastel continue o mesmo. A humanidade do ato de comer pastel no caos ao redor da barraca de lona é coisa do passado.