A jornada de volta de Jonathan Perdigão

Quem ouve o som afinado da banda de Cláudio Doggy não imagina que a afinação não surgiu por acaso – que o baixo poderia agora estar em uma casa noturna da Califórnia. É que Jonathan Perdigão cismou de deixar a banda e se lançar numa carreira internacional: ‘Se vira com a banda que eu vou para San Francisco‘. Cláudio perguntou se ele estava indo para aquele porto de Santa Catarina. Jonathan respondeu que ia pegar navio em Itajaí para ir clandestino para os Estados Unidos. Aquilo parecia grande bobagem, mas Cláudio não insistiu. Pior coisa na banda é músico contrariado. Que fosse. E boa sorte.

Jonathan contou que tinha amigo esperto que era baterista. Era o Labareda. O cara conhecia meio mundo em San Francisco – pela internet. E os caras garantiram emprego e deram dica de navio – o Melville – cujo capitão tinha perna de pau e aceitava, por uns trocos, embarcar clandestinos para os Estados Unidos, desde que tivessem talento musical. O navio vinha não se sabia de onde, ia atracar em Itajaí, depois descer até o sul, contornar o cabo da Boa Esperança e através do Pacífico, chegar a San Francisco. No papel estava perfeito. Mas na prática, às vezes, a teoria leva umas derrapadas feias.

Até hoje Jonathan não sabe o que aconteceu. Mas os caras do Melville alegaram que ele estava clandestino, tomaram o seu dinheiro e o botaram para fora do navio antes de ele zarpar na direção ao sul do mundo. O mais estranho foi que Labareda ficou no navio. Jonathan espera um dia ter a chance de encontrar Labareda e tirar a história a limpo. Enquanto olhava o navio se afastar do porto, Jonathan pensou que sobrou apenas um plano na sua vida: voltar para casa. E como estava sem dinheiro, o negócio era voltar a pé e com fome. E foi o que fez. Foi andando pela rodovia, faminto e sem ninguém a lhe dar de comer. Uma situação que despertava pensamentos raivosos sobre a humanidade.

Quando chegou em Joinville, estava um bagaço. Ninguém dava a mínima para o seu dedo indicador, pedindo carona. Ao passar diante de uma casa, sem ninguém por perto e observar um triciclo aparentemente abandonado, ele pegou aquilo, montou em cima e começou a pedalar pela rodovia. A cena era patética. Jonathan pedalava com raiva: ‘A que nível eu cheguei, meu Deus!‘. A sorte dele foi um pastor batista passar por perto e ver aquele marmanjo pedalando o triciclo na rodovia, se apiedar e deduzir que se tratava de um maluco ou alguém numa situação delicada. O pastor parou o carro e resolveu ajudar Jonathan de forma elementar. Comprou o triciclo.

Jonathan estava perto de Garuva. Com o dinheiro, ele comeu cinco pastéis com dois pingados na rodoviária, pegou ônibus do Expresso Maringá e voltou feliz numa poltrona até Curitiba. Quando chegou a cidade a primeira coisa que ele fez foi ligar para Cláudio Doggy anunciando o fim de seus planos de fazer carreira internacional e querendo saber se a banda ainda precisava de baixista. E foi assim que a afinação da banda de Cláudio foi garantida. Mas Labareda, se um dia aparecer em Curitiba, vai ter que explicar muitas coisas que não ficaram claras no plano que ele apresentou para Jonathan conquistar a América. Cláudio Doggy debochou: ‘Se você estiver indo para San Francisco, não se esqueça de usar flores em seu cabelo‘. Jonathan fechou a cara e não respondeu.

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