Eles somem, mas subitamente aparecem nos cruzamentos das ruas da cidade, sem música de picadeiro, sem banda ruidosa, fugazes. Nunca os mesmos – mas não tem importância, poucos reparam. São malabaristas, palhaços, equilibristas, alguns exímios, outros nem tanto. Eles se sustentam sobre bolinhas, engolem fogo, jogam para o ar ícones que não caem no chão, caminham sobre pernas de pau, todos no afã de atrair o motorista que quase sempre demonstra frieza e indiferença, quando não se tranca em seu carro com janelas fechadas e ignora o pedido de contribuição que segue ao fim de cada micro-apresentação – um espetáculo que demora o tempo exato em que o sinal fica fechado. O sinal está vermelho para o motorista, mas aberto para o show.
Já os vi no Campina do Siqueira, nas Mercês, na Praça Tiradentes e também ao lado do Shopping Mueller, no Cristo Rei, no Água Verde, por toda a cidade. Eles fazem números diante dos veículos parados, pedem contribuição e quando o sinal abre, caem fora e os carros disparam. Embora vistam roupas coloridas, são invisíveis – ninguém dá bola para o que fazem ou pedem. Um dia destes eu os vi por alguns minutos, fui embora e eles ficaram sob o tempo instável de Curitiba, se encharcando de garoa e depois se secando ao sol, mas nunca interrompendo os números porque mesmo no sinaleiro, o show não pode parar.
Como o circo se tornou raridade nos dias de hoje, os seus artistas – ou os artistas que deveriam estar no circo – se dispersam pelas ruas da cidade, como num exílio decretado pela decadência empresarial da arte secular, porque a excelência dos artistas permanece intacta. Os malabaristas do sinal vermelho são um fenômeno contemporâneo – estão em Curitiba e em outras grandes cidades. De onde esta gente sai, é um enigma – há quem diga que são desempregados que procuram na rua um improvável sustento. No entanto, ao mesmo tempo em que exibem os seus talentos, eles estampam a esperança de um mundo melhor – que seria traduzida pela generosidade alheia. Há quem diga que são estudantes de cursos de artes circenses. A cidade tem por paradoxal que seja. Se o circo como empresa é investimento de alto risco, cujo capital além de não ter garantia de retorno, quando isto acontece é em longo prazo e em dividendos pífios, o conhecimento acumulado pelos artistas pode ser utilizado em outras áreas da sociedade moderna: por preços módicos, o aluno do curso tem à disposição um método alternativo de conscientização corporal, de autoconhecimento com relação aos limites e de superação. Além disso, pode ser uma opção para quem quer fugir dos treinamentos regulares das academias, porque muita não gente agüenta mais conversa mole de personal trainer marombado.
Seja uma coisa ou outra, o certo é que eles aparecem e desaparecem como vagalumes ou miragens, que ora são e depois deixam de ser. O compositor João Bosco dedicou a estes artistas de rua uma composição denominada Malabaristas do Sinal Vermelho, na qual diz: ‘Penso nos malabaristas do sinal vermelho, que nos vidros fechados dos carros descobrem quem são: uns, justiceiros, reclamam o seu quinhão; outros pagam com a vida sua porção. Todos são excluídos na grande cidade‘. Acho que é uma bela tradução, embora não tenha certeza de que seja realmente a única.