Morrer é um hábito que não sai de moda. Assim como o nascimento é associado à alegria, a morte é associada à dor e tristeza. Eu não quero dizer que as pessoas de hoje são insensíveis e que não sentem a perda de um ente querido. Nada disso. Sentem, sofrem, mas externam a dor com certo recato e discrição. Os velórios antigos, em comparação com os de hoje, eram cênicos, teatrais, espetaculares. Tinha berreiro, grito e gente descabelando. Velório hoje em dia nas grandes cidades é contido, quase burocrático. E quando falo de grandes cidades, falo de Curitiba, Londrina, Maringá e Cascavel, para citar três metrópoles regionais.

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E não acho isto ruim. A dor tem que ser natural. Não pode ser artificial. Quem não chorava ou descabelava no velório antigo era visto com desconfiança, como se fosse mau. E quanto mais exagerava no choro, maior era a cotação do parente do finado entre os amigos. Virava encenação. A viúva cansada e meio conformada iniciava novo berreiro quando chegava novo conhecido, amigo ou parente, era para mostrar dor a quem não viu o choro anterior. E para ajudar a viúva a chorar, tinha até profissional que se revezava no berreiro: era a carpideira. Seu ofício era chorar em velório, mesmo que não tivesse visto o defunto em vida. Chorava sem dó nem piedade. O berreiro corria solto até o corpo ser levado para o cemitério, o padre falar as palavras derradeiras e tudo ficar, finalmente, consumado.

E como velório antigo era na casa do finado, e não em espaço para este fim como hoje, quem fosse visitar o defunto, já ia armado com frases protocolares: “ele foi um grande sujeito”, “isto vai acontecer com todos nós”, “ele foi para um lugar melhor que este”, “um dia todos nós o encontraremos”, “ela está tão bonita que nem parece que está morta” e assim por diante. Eu era pequeno e espírito de porco e fui a um velório em que a viúva estava de preto, mas era jovem e bonita. No entanto, o finado em vida foi um cafajeste. Eu disse para meu tio: “Será que ninguém vai dizer para ela que com aquele corpão ela arruma coisa melhor?” Meu tio quase me deu um cacete no velório. E me escorraçou. Velório era coisa séria, sóbria e solene.

Aliás, até o fim dos anos 70, luto também era sério. Quem não botava luto era injuriado. E luto era de seis meses a um ano de roupa preta. Eu gostava muito de minha avó e quando ela morreu em 1973 eu botei luto de seis meses. Sabia que ela ia ficar satisfeita se pudesse ver. Até a cueca era preta. Já era época em que o hábito estava fora de moda. Eu trabalhava no Bradesco e o pessoal não perdoou: fiquei conhecido como Durango Kid. O apelido sumiu quando o luto acabou. Tinha moça que era cliente e confessou ao gerente: “Eu gostava tanto dele com aquela roupa preta. Ele ficava misterioso”. É, Johnny Cash, eu também fui um homem de preto!   

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Se morrer não sai de moda, a relação com a dor da morte está menos dramática, menos ritual e menos hipócrita. Eu diria, está elegante. O que não significa que ninguém sofra. Mas sofrer é a parte da moeda da vida que tem o prazer no lado oposto. Se o prazer é indefinível, a dor também. Em ambos os casos, são emoções pessoais, intransferíveis e intraduzíveis. Berrar não melhora nem piora. Só faz barulho para quem quiser ouvir e interpretar. O berreiro já foi uma etiqueta funérea. Hoje não.