Na escala Richter, inventada por Charles Richter e aplicada inicialmente em 1935 para medir tremores de terra na Califórnia (EUA), terremotos entre 3,5 e 5,4 graus podem causar danos. Provocam efeitos menores em edifícios bem construídos. Quando o fenômeno ultrapassa, porém, a escala de 8 graus, como o terremoto que destruiu São Francisco em 1906, as conseqüências podem ser catastróficas, mesmo que as construções sejam sólidas. Na política, o princípio dos sismos é o mesmo. A potência do tremor se faz sentir com mais intensidade em terrenos íngremes. Dito isto, vamos conferir o sismógrafo da política nacional, que acaba de registrar o primeiro tremor com algum impacto nas cercanias do Palácio do Planalto. Ele não atingiu graduação perigosa, capaz de fazer o governo perder o controle dos recursos críticos para a manutenção da estabilidade administrativa, mas não foi tão insignificante a ponto de passar imperceptível como os 300 mil terremotos de nível 2 que ocorrem anualmente no planeta. Rachaduras apareceram no edifício político por conta da argamassa pouco consistente que Lula tem usado para engessar as relações institucionais de sua administração com os partidos.
Os abalos sísmicos nos governos são provocados por atritos nas placas que compõem as três grandes frentes da ação administrativa: a partidária, a econômica e a social. Examinando-se a morfologia do terreno pedregoso do governo Lula, percebe-se que ele é íngreme na vertente política, sinuoso nas rotas sociais e plano na superfície econômica. Em outros termos, o governo escorrega no despenhadeiro das pressões políticas, perde-se completamente no emaranhado da gestão voltada para as demandas sociais, recuperando o prumo apenas quando encontra o espaço econômico, onde pode até se dar ao luxo de navegar por meio de um piloto automático, manejado por eficientes comandos da ortodoxa política monetária.
A sensação de que Lula deu um golpe de mestre ao reagir ao ultimato do presidente da Câmara, restringindo a reforma ministerial à troca de dois ministros, não diminui o impacto de tremores que, desde a eleição de Severino Cavalcanti, abriram uma zona de perigo nas divisas entre o Palácio do Planalto e as cúpulas do Congresso, particularmente a que abriga os 513 deputados federais. Basta ver a derrota da MP 232. E o tamanho do ?custo Severino?, de mais de R$ 30 bilhões, decorrentes da modificação aprovada na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), que elevou os gastos com benefícios, e mais as vantagens concedidas por emenda constitucional alterando regras da Previdência Social. Rombos que estourarão as contas públicas, para os quais contribuiu a própria desarticulação política do governo, foram abertos em diversas frentes. Há, portanto, um tsunami em progressão que, não contido pelo Senado, levará de roldão projeções de uma reeleição tranqüila de Lula.
A reversão de expectativas em relação à reforma ministerial não significa, ao contrário do que se pode imaginar, retomada do poder de dar as cartas pelo Executivo e reacomodação das ?placas tectônicas? da estrutura parlamentar. Os tempos pré-eleitorais se aproximam e uma vigorosa e persistente pressão acabará obrigando o presidente Lula a reabrir a tal reforma ministerial, tanto para preencher demandas de cunho fisiológico quanto para colocar terra no vazio social, onde o governo precisará mostrar serviço, sob pena de expandir os largos buracos da insatisfação social. O desemprego volta a crescer, a violência continua a exigir ações impactantes e a fúria arrecadatória mobiliza classes médias e pólos irradiadores de opinião. O PNBInf (Produto Nacional Bruto da Infelicidade) não está sob controle rígido. Portanto, nas planícies sociais corre uma seiva de contrariedade que começa a respingar nas franjas da imagem de Lula. A pesquisa apontando queda de quatro pontos na aprovação da gestão constitui indício de que as fissuras já detectadas em espaços sociais e políticos tendem a ampliar o atrito entre eles e o governo caso este não consiga debelar o desgaste a que tem sido submetido nos últimos meses.
Não apenas o império petista, vale dizer, sofre com o primeiro terremoto de monta no terreno político. No rastro deixado pelo tufão Severino, que espalha tempestade por todos os lados, sobram acidentes no percurso político de dois importantes peregrinos. Em São Paulo, Geraldo Alckmin entra em refluxo, após a derrota sofrida por seu candidato à presidência da Assembléia Legislativa. No Rio de Janeiro, após ampla exposição na TV, vendendo a imagem de bom administrador, César Maia é abatido pela intervenção do governo federal na precária rede municipal de saúde. Até o momento, os sismos não registraram vítimas fatais. Mas é inegável que Lula, Alckmin e Maia perderam vetores de força. Os tempos que virão serão cobertos de imprevisibilidade. O que se pode assegurar é que agora começou pra valer o segundo tempo do jogo que culminará nas eleições de 2006. Uma reforma ministerial, mais adiante, não está descartada. Quem já saiu com índice de 2% no início de campanha eleitoral e acabou vencendo o pleito sabe que, neste País, nem o galo de véspera tem morte garantida. Na lousa de 2006, só se vê borrão, nenhum perfil, nem mesmo o desenho de uma cara barbada.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.