Como seria fácil prever começa a ser desenrolada a maçaroca da escuta ilegal de conversas telefônicas, que de um lado do misterioso fio sempre tinha o ouvido bem treinado de um agente da Agência Brasileira de Informações (Abin), sucedânea do mal-parido Serviço Nacional de Informações (SNI). Nunca é demais lembrar que a manutenção de um monstrengo institucional sobrevivente no espólio ditatorial, para cúmulo do absurdo, parece atender aos arreganhos da vocação teratológica de determinados setores do aparelho de Estado. É inconcebível que um governo que apregoa estribar-se sobre primados da democracia e respeito aos direitos individuais dos cidadãos, conviva com uma excrescência que também atua na zona cinzenta da adulteração de fatos e palavras.
Na sarabanda de reuniões de emergência realizadas pela atarantada cúpula do governo, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, desincumbiu-se da embaraçosa missão de informar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a Abin tem em seu poder, compradas de forma ilegal, maletas preparadas para fazer interceptações telefônicas. Com a utilização da engenhoca eletrônica é perfeitamente possível interceptar ligações telefônicas de celulares, sem necessidade de cooperação das operadoras e, aí está o perigo, permitindo a dispensa da complicada autorização do Poder Judiciário. Segundo o noticiário, foi esta constatação que consolidou a idéia do afastamento do diretor-geral da Abin, delegado Paulo Lacerda, pelo período de duração das investigações a cargo da Polícia Federal.
A revelação de Jobim chocou o presidente Lula e o vice José Alencar, além dos demais ministros que integram o núcleo de coordenação política do governo, passando a assumir a conotação de um nervo exposto a impressão de que as coisas estão fora de controle, porquanto a aquisição do referido material foi realizada por meio do sistema de compras do próprio governo. Ora, em se tratando de um gasto definido e levado a efeito de conformidade com os parâmetros estabelecidos pela burocracia, como se deve interpretar o manto de silêncio diante da compra de um equipamento de utilização proibida? Teria ocorrido nesse caso uma aplicação da competência de um organismo que se envaidece da prestação de serviços especializados de espionagem e criptografia? De acordo com a legislação a Abin não está autorizada a fazer escutas clandestinas de ligações telefônicas e, destarte, a explicação urgente devida à sociedade é que motivos determinaram a necessidade de adquirir as referidas maletas.
O general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, que ninguém sabe exatamente o que significa ou para que serve, no depoimento à CPI dos Grampos, como um conselheiro Acácio fardado negou que a Abin, como instituição, tenha decidido grampear o telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes. Porém, como se estivesse caminhando sobre areia movediça o general tergiversou um bocado, mas acabou admitindo a hipótese de que a escuta clandestina tenha sido realizada por agentes da Abin. É exatamente isto que a nação tem o direito de saber. E esta também deve ter sido a intenção do presidente Lula ao afastar o delegado Paulo Lacerda e demais dirigentes da Abin, a fim de permitir que a apuração dos fatos tenha toda a transparência desejável.
Contudo, um intrometido grilo começou a pipilar na engrenagem. O diretor interino da Abin, Wilson Trezza, antigo oficial de inteligência do SNI, já trabalhou para o Grupo Opportunity do banqueiro Daniel Dantas, um fantasma de carne e osso que insiste em adejar sobre o Palácio do Planalto. Funcionário destacado durante os mandatos de FHC, Trezza ocupou durante um ano a direção da subsidiária criada para cuidar dos planos de benefícios dos empregados da Brasil Telecom, então controlada por Dantas, retornando à Abin. Não teria sido mais sensato optar por um servidor que não tivesse no currículo esse pormenor desconfortável?