Ontem deveria ter sido feriado na Venezuela e o motivo invocado pelo governo foi permitir à população mais tempo para comemorar os dez anos de Hugo Chávez, na presidência da República. Vários setores da economia, especialmente a indústria e o comércio, ameaçaram desconhecer a validade da medida, alegando que teriam prejuízos com a liberação inusitada de seus empregados. Todavia, grande parte da população venezuelana já não se surpreende com determinadas atitudes personalistas do autoproclamado líder da revolução bolivariana.

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Na verdade, Chávez tem o foco de seu interesse voltado para o resultado do referendo marcado para o próximo dia 15, quando a população dirá o que pensa sobre a reeleição indefinida pretendida pelo presidente. De acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Datanalisis, 51,5% dos eleitores querem o fim da limitação à reeleição, ao passo que 48,1% são contrários à proposta. Para alguns analistas, como o sociólogo Edgardo Landis, a preocupação com o resultado do referendo atinge quase todo mundo, tendo em vista a probabilidade do surgimento de sérios conflitos na sociedade. “É tudo ou nada. Se o chavismo perder é o começo do fim”, resumiu.

Por seu turno, Chávez não esconde de ninguém a intenção de perpetuar-se no exercício da presidência, sentimento que se dilatou desde a primeira eleição em 2 de fevereiro de 1999, quando conquistou o cargo com 56% dos votos. Passados dez anos, o “comandante” da revolução bolivariana, insuperável veleidade fisiológica de forçar a barra para se apresentar como herdeiro presuntivo da legenda de Fidel Castro, Chávez não pensa em outra coisa senão no prolongamento indefinido de sua presença no Palácio Miraflores, sede do governo da Venezuela.

Os familiarizados com a política do país afirmam que a reeleição indefinida tornou-se uma obsessão para o presidente Chávez, reforçando a tese de que pouco se pensa na possibilidade de ver a Venezuela livre do chavismo. Aliás, o próprio presidente resume seu pensamento sobre o assunto, ao cascatear que caso a oposição chegue ao poder, haverá uma guerra.
A visão de democracia do presidente Hugo Chávez parece contaminada por uma ambiguidade sem limites, pois ao mesmo tempo que nega à oposição o direito constitucional da conquista do poder pelo voto, chega ao limite de suspirar com a ameaça de conflito armado e, no mesmo tom autoritário, suplanta quaisquer resquícios de convivência civilizada, um valor que parece ter relegado a crasso olvido, para exaltar o continuísmo como única via para consolidar o processo da revolução democrática bolivariana.

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Chávez não parece se incomodar com o risco da perda dos avanços sociais obtidos por seu governo em face da disparada dos preços do barril de petróleo, cujos recursos permitiram a implantação de projetos sociais especialmente dirigidos à maioria carente. Os avanços se produziram nos setores de educação e saúde pública, com a ajuda de técnicos cedidos à Venezuela pelo governo cubano. Houve também melhoria na renda da população que passou a ter acesso facilitado à obtenção de financiamento de obras supervisionadas por associações comunitárias.

Contudo, a excessiva concentração de poder por parte do presidente da República, amparado pelos mecanismos de controle do Legislativo e do Judiciário, acabou contribuindo para minar a propalada resistência dos ideais bolivarianos. Além disso, o governo também não conseguiu estancar a histórica corrupção dos agentes públicos, já que ainda figura entre os 15 países mais corruptos da América Latina, onde segundo o levantamento da ONG Transparência Internacional, somente é ultrapassado pelo Haiti. No dia 15 de fevereiro, apurados os votos a favor e contra, Chávez terá o veredicto da maioria venezuelana sobre a reeleição indefinida. Em 2007 o não venceu pela escassa margem de 50,7% dos votos. E agora?

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