Hélio Duque

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?Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.? A expressão do poeta militante transformou-se numa peça teatral de enorme sucesso na década de 70, no Rio de Janeiro. Era tempo de autoritarismo triunfante, daí ter-se incorporado no linguajar popular, naqueles tempos de trevas. Igualmente, os tiranos de plantão faziam uso corrente de amedrontar e intimidar a sociedade que lutava por liberdade. Fez escola.

Aqui, ali e acolá os ?tiranos falsificados? usam e abusam das truculências carregadas de ameaças e intimidações. Quase sempre, além da sociedade, a imprensa é a vítima preferida. Seja pelo acafajestado boicote de verbas e admoestações a futuros anunciantes; seja pelo uso de processos via o poder judiciário, que, quase sempre, nega provimento ao pretenso atentado à liberdade de imprensa.

Resta a pergunta que não pode calar: será que se ficar o bicho pega e se correr o bicho come? No estado democrático de direito nada mais falso. O bicho da intolerância, mesmo investido de uma roupagem estatal, não pode meter medo em ninguém. As liberdades públicas e democráticas, quando se resolve encarar os tiranetes investidos do poder do Estado, são as garantias constitucionais para o enfrentamento. E invertendo o jogo, enquadrar a ameaça e a intimidação nos rigores da lei.

O bicho da intolerância é escorraçado quando se resolve reagir. Ao enfrentá-lo com coragem desafiadora, é ele que corre, foge e desaparece na mata escura. Aquele bicho que proclamava se ficar pega, se correr come, é reduzido a sua real dimensão de covardia.

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Na vida política de uma sociedade essa expressão do poeta militante tem um valor transcendental. Uma realidade plasmada na submissão, omissão e nenhuma participação popular gera um quadro de amedrontamento ante as personalidades voluntariosas. Quase sempre os tiranetes provinciais e nacionais usam e abusam de uma roupagem de coragem falsificada para intimidar os governados. Os exemplos se multiplicam por todos os quadrantes da sociedade brasileira. São os vícios históricos de uma sociedade atrasada e oligárquica que, infelizmente, ainda mostra eco nesse início de século XXI.

Hoje é um dia muito importante para a sociedade brasileira enfrentar o bicho da intolerância, da incompetência e da corrupção que vem esgarçando o tecido da esperança, que não pode ser sepultada. Não é um dia qualquer. Os brasileiros vão escolher pela via democrática, fazendo uso consciente desta hóstia cívica que é o voto, aqueles que comandarão o país, os estados e os parlamentos federais e estaduais. É um ato fundamental de cidadania. É o momento da eliminação, em nome da democracia, dos homens públicos relapsos, mentirosos, falsários da representação popular. É, igualmente, o momento de prestigiar os que fazem da ação política o ato supremo de lutar para a edificação de uma sociedade ética, decente e compromissada com os valores da solidariedade generosa.

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O Brasil que emergirá hoje será aquele que a sociedade livremente escolher. Os próximos anos serão fruto desta opção. Todos são responsáveis pela construção deste futuro. Os eleitos serão a expressão desta vontade coletiva. Oxalá, o voto seja a arma utilizada para a construção de uma sociedade humanista e fraterna, onde, em um tempo próximo, ninguém venha a se arrepender.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991) e é autor de vários livros sobre a economia brasileira.