Ariane Holzbach
E é daquele bem cremoso, cheio de pedaços de frutas? Então você deve se ajoelhar agora e agradecer aos céus por não fazer parte dos 57 milhões de brasileiros que estão passando fome neste momento. ?Ih, que saco! Mais um texto sobre famintos, miséria e falta de oportunidade.? Não, não é nada disso. Este texto quer ser apenas uma pergunta direcionada a você e às autoridades: o que está acontecendo com o Brasil?
Por que não conseguimos fazer bonito quando estudiosos resolvem escancarar índices, estatísticas e números que medem a qualidade de vida de um povo? Todos os dias mais uma notícia ruim aparece. Já se sabe que estamos na vergonhosa posição de 65.º no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
As autoridades vivem berrando que ?o Brasil é a potência latino-americana?, mas, nesse ranking, estamos atrás de Uruguai, Costa Rica, Chile, Cuba, México… O País do Carnaval possui 13 bolsões de pobreza, igualando-se a Uganda, na África. Indo mais fundo, 50% das crianças brasileiras com até dois anos encontram-se na linha da pobreza. Você tem idéia da gravidade desse índice? Metade das crianças está morrendo de fome!
Mudando de números – mas não de vergonha -, o Bird divulgou recentemente que o Brasil não é bom exemplo quando o assunto é aquele que poderia amenizar a fome: a governabilidade. Entre os latino-americanos estamos atrás apenas do Chile, é verdade. Mas ficamos atrás de Botsuana, novamente a África, e recuamos em quatro dos cinco itens analisados. E, entre todos, sabe quais foram os que obtiveram os piores resultados? Adivinhe: império da lei e controle da corrupção. Agora dá para ver por que a fome ainda reina absoluta.
Soma-se a tantas más notícias o fato de, mesmo com todos os avanços econômicos alardeados pelo governo, 10,8% da população economicamente ativa está desempregada. Se você considera um número pequeno, lembre que é o pior dos últimos seis meses. E olhe que o IBGE, que mede o índice, só reúne informações daqueles que procuram trabalho, excluindo os que cansaram, estão em depressão, não têm forças para sair de casa, não sabem por onde começar… A cova, no fim, é bem mais funda.
E se quiser mais números, a lista é grande. A renda de uma pessoa rica é 25 a 30 vezes maior que a de uma pessoa pobre, 1% dos mais ricos detém o mesmo que os 50% mais pobres. Para saber como as pesquisas definem pobre, o Ipea, por exemplo, considera os que ganham menos de R$ 149,00 por mês. Considerando que uma caixa de iogurte com pedaços de frutas custa, em média, R$ 4,50, daria para comprar 33 pacotes com quatro iogurtes. Só para ilustrar: uma família com quatro pessoas teria que sobreviver com um iogurte por dia para cada, o que dá 60 calorias.
E, agora, para terminar a lista dos horrores, um último número: o país das mulatas, do bumbum durinho e da cintura fina ocupa o 51.º num ranking que comporta 58 países sobre a diferença de direitos entre os sexos, segundo o Fórum Econômico Mundial. Isto significa que, além de ter que conviver com tantos índices terríveis que não diferem homem de mulher, o suposto sexo frágil precisa competir com maior quantidade de homens que em países como Zimbábue e Indonésia.
Aliás, com um índice assim, fica fácil entender por que a mídia, ao falar da Cúpula América do Sul-Países Árabes, fez o maior alvoroço ao redor da palavra democracia, que o Brasil não fez muita questão de incluí-la nas discussões, mas se esqueceu completamente do modo como a maior parte dos árabes trata as mulheres. Ninguém se pronunciou, ninguém defendeu, ninguém explicou. Enfim, a palavra mulher não fez parte de nenhuma discussão.
Agora, por favor, se você está tomando seu iogurte geladinho, aproveite este tempo e, em vez de pegar mais alguma coisa na geladeira e reclamar porque está faltando achocolatado, que tal refletir? Este é o primeiro passo para mudar o que os números insistem em denunciar.
Ariane D. Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro.
E-mail: arianediniz@uol.com.br