A Bíblia apresenta a vida humana como ?uma grande bênção para todos os povos?. A vida foi comunicada para crescer, com saúde e trabalho: ?Crescei, sede fecundos e dominai a terra?. Vemos que o homem foi criado para ser coadjuvante na complementação do mundo ?informe e vazio?. O homem foi criado para complementar o mundo desprovido e levar à prática, por meio de providências concretas, o sonho de Deus a respeito da imensa família humana.
Por isso, a vida humana deve ser considerada um grande bem: deve ser cultivada, protegida e constantemente orientada para proveito de todos.
Para alguns, isso significa acumular bens e dinheiro, abarrotar os armazéns particulares e providenciar o futuro. Para outros, será necessário providenciar medidas adequadas para ser chefe de família, garantir roupa e alimento, casa, saúde e formação profissional.
Entretanto, não devemos esquecer que a vida é passageira, desfaz-se como a fumaça e foge como as sombras ante o amanhecer do dia. Apesar disso, vale a pena encaminhá-la para o bem, orientá-la para a justiça e comprometê-la com o projeto de Deus, criando e multiplicando recursos que possibilitem a construção de uma sociedade igualitária, progressista, com ordem e segurança.
Outrossim, convém recordar que sempre, quando alguém deseja desfrutar pessoalmente a vida na ociosidade e no prazer, alguém deverá pagar por isso. Surgem dali as desigualdades sociais, onde os privilegiados exploram os mais fracos, forçando-os a custear os excessos de uma vida fácil, mas enganosa. O pobre, na contramão, sente-se ofendido e injuriado com essa inversão de valores e parte para o revide e a vingança do coração.
De mais a mais, não estamos aqui por acaso. Não estamos aqui para viver e morrer como animais, aves e répteis. Fomos criados ?à imagem e semelhança? de um Ser, superior e inteligente, para vivermos num mundo plenamente humano, onde as pessoas convivem no respeito mútuo, na partilha e na fraternidade. Fomos criados para cumprir uma missão solidária, na justiça e no amor. Fomos criados inteligentes e livres, não para destruir, mas para construir uma sociedade harmoniosa, coerente, com funções variadas.
Recebemos inúmeros talentos do Criador, mas nenhum deles nos autoriza a enterrá-los ou investi-los em proveito próprio e exclusivo. Recebemos o dom da liberdade para um serviço inteligente de partilha com os mais necessitados. Neste particular, convém não esquecer ou ignorar a excelência da partilha, pois tudo quanto fizermos em benefício da viúva e do órfão esfomeado, em favor do idoso ou do portador de deficiências, reverterá em benefício de quem partilhou.
Servir é a palavra de ordem do carpinteiro de Nazaré, que ?não veio ao mundo para ser servido, mas para servir?, implantando uma verdadeira reviravolta em termos de visão trabalhista. Esse serviço não pode realizar-se sem a negação dos interesses pessoais.
No vocabulário do carpinteiro de Nazaré, servir significa assumir, livre e espontaneamente, uma tarefa em favor do próximo, independente de idade, cor, raça, língua ou religião. Tal fato pode parecer uma alienação, mas é preciso convir que o homem é um ser social, que não se realiza na solidão ou no abandono, mas no convívio com os seus semelhantes. Não se pode viver isoladamente, mas em sociedade, onde todos somos servidores e servidos, onde todos se dão as mãos para dar e receber, para sentir e abraçar, pois ?é dando que se recebe?, conforme o mestre de Assis.
Neste particular, embora o divino Mestre pudesse invocar mil títulos para isentar-se do serviço ao irmão, preferiu o caminho da entrega, transfigurando-se em modelo para a humanidade e fazendo-se entender em todas as línguas e povos: sejam árabes ou judeus, gregos ou romanos, bárbaros ou civilizados.
Infelizmente, os valores que hoje orientam o mundo são os do mercado e do modismo. Precisamente agora, quando o mundo dispõe de suficiente riqueza, possibilidade de poder econômico e suficiente afluência de suprimentos para matar a fome e superar a miséria, considerável parte dos seres humanos vive na fome e na miséria, sem pátria nem lar. Os responsáveis por essa dominação de valores são as intermináveis discussões políticas, raciais e ideológicas. Nascidos para a felicidade, somente a alcançaremos pelo serviço solidário e fraterno. Na ausência desse serviço, nossas contas não fecharão com Deus, com o mundo e, muito menos, com os homens.
Vendelino Estanislau é professor aposentado da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.