Ninguém entendeu realmente o que quis dizer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao se referir às pessoas preocupadas em “xingar” os que contribuíram para a eliminação física de militantes engajados na luta pela derrubada da ditadura militar. Na ótica do presidente da República, se estamos na trilha certa, o correto seria reverenciar a memória dos que tombaram lutando contra o regime de exceção. No mesmo tom, Lula revelou que a União Nacional dos Estudantes (UNE) e, também os sindicatos, deveriam exibir as fotos e publicar a história dos estudantes e operários mortos durante os anos de chumbo.

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Um aspecto a destacar na fala presidencial é a abnegação desprendida que todos devem cultivar quando lembrarem dos mortos em ações contra a ditadura. Longe de “xingar” aqueles que supostamente deveriam ser responsabilizados cível e criminalmente por essas mortes, na hipótese aventada pelo ministro da Justiça Tarso Genro, cujo açodamento na tarefa de reabrir o caso da tortura e dos torturadores lhe rendeu a ordem de enfiar a viola no saco, melhor será transformar os mortos em heróis e não em vítimas. O presidente afirmou literalmente: “Precisamos tratar um pouco melhor os nossos mortos. Toda vez que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos xingando alguém que os matou, quando, na verdade, esse martírio nunca vai acabar se a gente não aprender a transformar nossos mortos em heróis, e não em vítimas, como tratamos todas as vezes”.

O presidente Lula não deixou transparecer no discurso (e nem depois) se também fazia alusão aos integrantes das Forças Armadas mortos em combate, aos quais desde sempre a corporação jamais deixou de prestar as honras dedicadas aos heróis, sem abdicar, no entanto, da cega convicção de que todos foram vítimas indefesas de terroristas subversivos que guerreavam contra a ordem estabelecida. Até o momento, ao que se sabe, não houve o menor indício do que pensam os principais comandantes da caserna, além do pessoal da reserva, a respeito do desarmamento dos espíritos sugerido pelo presidente da República. Alguém poderia questionar, apenas para manter o fio do raciocínio, se o estamento militar estaria preparado para concordar com a concessão da aura de herói ao capitão Carlos Lamarca, morto no interior da Bahia, com a dispensa da versão estratificada que considera traidor o pérfido guerrilheiro, dessa forma justificando a chacina executada por antigos companheiros de farda.

A fala do presidente ocorreu no Rio de Janeiro, durante a assinatura do projeto de lei a ser enviado ao Congresso Nacional, propondo o pagamento de indenização à União Nacional dos Estudantes (UNE) pela invasão e demolição de sua sede, pouco depois do golpe de 1964. Quanto à sugestão de Lula para que a UNE organize uma galeria de fotos dos estudantes-heróis e torne públicas as suas biografias, “porque ninguém sabe quem são”, o governador paulista José Serra, que no ano do golpe presidia a entidade e foi vítima do arbítrio, admoestou que “o momento não é adequado para esse tipo de debate”, ressaltando que o Executivo deve confiar no Judiciário e na competência institucional do poder para conduzir o caso.

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Por sua vez, os ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) convergem quanto à impossibilidade de encerrar a polêmica causada pela tese da punição de agentes públicos envolvidos na tortura durante o ciclo de governos militaristas. Os comandantes do Exército, Aeronáutica e Marinha, foram recebidos pelo presidente e deram por encerrada a discussão gerada pelas declarações de Tarso Genro. O ministro, mantendo-se fiel ao script, asseverou que o assunto está resolvido no âmbito da pasta que dirige, mas nada impedirá seu prosseguimento no seio da sociedade, que está na expectativa do pronunciamento definitivo do Poder Judiciário, levando em conta a natureza delicada da questão e os reflexos negativos sobre a própria Lei da Anistia.