Desembarca hoje no Brasil para uma visita de dois dias, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, fundador do partido ultranacionalista Israel Beitenu (Israel Nossa Casa), terceira maior bancada no Knesset (Parlamento), no qual ocupa 15 das 120 cadeiras. Como se sabe, Avigdor recebeu a indicação para chefiar a diplomacia israelense em troca da adesão de seu partido à maioria precária que permitiu a formação do atual governo liderado pelo Likud, do primeiro-ministro Binyamin Bibi Netanyahu.
Lieberman será recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, e, segundo informações liberadas pelo Itamaraty, as conversações se darão em torno das preocupações do governo de Israel com a suposta influência do Irã em alguns países da América Latina. A Embaixada de Israel em Brasília confirmou a versão brasileira, alertando que o governo iraniano financia atividades armadas de grupos radicais palestinos, alertando para a hipótese de que eles poderiam estar planejando a infiltração em algumas regiões da América Latina. Não está descartada, porém, a iniciativa do lado brasileiro de levantar a questão política entre Israel e Palestina, sobre a qual o Brasil tem opinião formada, aproveitando o momento em que o próprio primeiro-ministro Binyamin Netanyahu reconhece a viabilidade da convivência de dois estados soberanos.
Um dos pontos que Avigdor deverá lembrar em reforço da tese da hipotética ameaça iraniana aos países da América Latina, será a explosão das instalações da Amia, um centro de assistência a cidadãos judeus em Buenos Aires, com dezenas de mortos e feridos. Segundo as conclusões do inquérito o atentado terrorista teria sido financiado pelo Irã.
Entretanto, no aspecto oficial a visita do chanceler Avigdor Lieberman ao Brasil, é parte do comportamento adotado pelo governo israelense em estreitar relações bilaterais com os países formadores do Bric (grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China). Amorim revelou que o comércio entre Brasil e Israel triplicou nos últimos cinco anos, passando de US$ 600 milhões para os atuais US$ 1,6 bilhão. Nessa perspectiva, o presidente Shimon Peres deverá visitar o Brasil em novembro, a fim de iniciar os preparativos para a retribuição do presidente Lula a Israel, em 2010.
Segundo os jornais, o pormenor curioso em relação ao ministro Avigdor Lieberman é que ele não tem sido designado para as missões diplomáticas mais delicadas do ponto de vista do governo de Israel. As razões estão nas ressalvas manifestadas por governantes como Barack Obama, Nicholas Sarkozy, Mahmoud Abbas e Hosni Mubarak, além de Tony Blair, atual negociador para o Oriente Médio por indicação do bloco formado por Estados Unidos, União Européia, Organização das Nações Unidas (ONU) e Rússia. Ainda não está esquecido o profundo mal-estar causado por Lieberman em encontro com a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, realizado em maio passado. O ministro israelense, na entrevista coletiva após a conversa, discordou de quase tudo o que Hillary afirmara, principalmente, sobre a questão de “dois Estados para dois povos”, cuja base é a criação de um estado palestino ao lado de Israel.
Por isso, Netanyahu tem preferido utilizar como representantes do governo o presidente Shimon Peres, que já esteve no Egito e Jordânia desempenhando a missão de negociar o processo de paz com os palestinos, o ministro da Defesa Ehud Barak, que encabeça as negociações com a Casa Branca, ou o vice-primeiro-ministro Silvan Shalom, que é o interlocutor autorizado para aprofundar o diálogo com Tony Blair e diplomatas dos países árabes. A prova mais evidente, entretanto, é que Bibi já anunciou que assumirá pessoalmente a chefia da representação de Israel perante à Assembleia Geral da ONU, em setembro próximo. Até lá, segundo projeções de analistas da política do Oriente Médio, Lieberman poderá estar alijado do governo caso venha ser indiciado com base nas investigações de participação em fraudes e lavagem de dinheiro.