Num momento de profunda reflexão em meio à tormentosa corrente desafios políticos e econômicos que enfrenta como presidente da maior nação da América do Sul e, uma das vinte mais importantes do mundo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ouvidas as ponderações de colaboradores dotados da visão humanista e bom conhecimento da história, terá a oportunidade de se arrepender e apresentar desculpas não meramente protocolares pela atabalhoada peroração de que estamos diante de uma “crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes da crise parecia saber tudo e agora não sabe nada”.

continua após a publicidade

A afirmação foi feita na presença do primeiro-ministro Gordon Brown e vários jornalistas que vieram cobrir a visita do chefe do governo da Grã-Bretanha ao Brasil. Não passou despercebido aos observadores da cena lamentável sob todos os aspectos, que tanto o primeiro-ministro e seus acompanhantes ostentam um perfil bastante parecido com o descrito pelo presidente brasileiro. Para começo de conversa, é evidente o desprezo de Lula aos informes que lhe são preparados pelo serviço diplomático, como subsídios para as conversações com autoridades estrangeiras recebidas oficialmente no Brasil, ou nas constantes viagens feitas por nosso presidente ao exterior.

Ainda está viva na memória dos brasileiros a gafe cometida pelo presidente ao apreciar a beleza de uma capital africana, enaltecendo de modo especial a limpeza das ruas e praças e, por esse motivo, confessando a dificuldade de “acreditar” tratar-se verdadeiramente de uma cidade localizada na África.

Agora chegou a vez do primeiro-ministro britânico registrar em suas memórias de dirigente de grande potência, o “privilégio” de ter ouvido do presidente brasileiro a afirmação de que, ao desconhecer qualquer “banqueiro negro ou índio”, é um exercício intelectual elementar transferir para os banqueiros “brancos e de olhos azuis” da City londrina ou da Wall Street nova-iorquina, a paternidade da crise financeira internacional. Indagado se sua afirmação continha algum laivo ideológico, Lula respondeu tratar-se da límpida constatação de um fato, sendo sua obrigação proclamar que é injusto cobrar a conta dos negros e dos índios. Ou seja, das populações dos países do Terceiro Mundo, mesmo que em grande parte desses territórios, em especial na América Latina, elas resultem da miscigenação dos povos autóctones com os primeiros colonizadores europeus e escravos africanos.

continua após a publicidade

Também não é possível desconhecer a importância das correntes migratórias posteriores que, no caso brasileiro, trouxeram levas incontáveis de alemães, poloneses, italianos, judeus, libaneses e asiáticos, que para cá vieram atraídos não apenas pelas oportunidades do recomeço da vida, mas, acima de tudo, pela fidalguia da população nativa. Diante disso, Lula deve explicações e pedidos de desculpa aos Rousseff, Mantega, Stephanes e tantos outros que teve o descortino de convocar para o primeiro time de auxiliares, cuja ancestralidade tem raízes fincadas na brava gente branca de olhos azuis que se lançou à aventura de atravessar o Atlântico em busca do Eldorado.

Queira Deus que o enfatuado deslize de Lula não restabeleça a impressão que europeus ocidentais tinham do Brasil, na primeira metade do século passado. As anotações foram feitas por Sérgio Buarque de Holanda, que nos anos 30s visitou vários países, entre eles a Alemanha. Lá se dizia que os brasileiros não tinham ambição de qualquer espécie e se satisfaziam com uma pequena palhoça feita de barro e bambu. No interior quase todos os habitantes eram analfabetos e sobreviviam da alimentação farta fornecida pela natureza. Um jornal berlinense citado por Sérgio Buarque noticiava que nossos políticos serviam-se “não raro, de bandidos perigosos para fazerem vencer as suas ambições pessoais”. Escrevia-se também que as figuras mais populares da época eram o padre Cícero e o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, a quem se definia como o “Ali-Babá do Nordeste do Brasil”. Seria importante auscultar a sapiência sociológica de Lula para saber se mudou alguma coisa de lá para cá.

continua após a publicidade