Com a experiência adquirida ao longo dos muitos anos dedicados à administração pública, primeiro na prefeitura de Curitiba e, depois, no governo estadual por dois mandatos, ademais dos inúmeros projetos de reformulação urbanística realizados em vários países, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner enunciou ao repórter Leonardo Coleto, na entrevista publicada por O Estado do Paraná na edição de domingo, que o sistema de metrô planejado por Beto Richa (um ótimo prefeito na sua avaliação), “no imaginário das pessoas é como uma rede completa, mas isso não vai acontecer, será apenas uma linha”. E lembrou que na cidade de São Paulo, com as quatro linhas já implantadas, “84% dos deslocamentos são feitos por terra”.
Dizendo claramente que o metrô é “desnecessário”, o arquiteto retirado da vida pública, à qual confessa não ter a mínima intenção de retornar, reiterou que “é a superfície que precisa continuar a ser bem operada”, pois continua “acreditando que o futuro está na superfície”. Reservando-se o direito de não emitir juízos de valor sobre as alternativas disponíveis, Lerner sustentou não estar preocupado “em provar qual é o sistema melhor, mas o metrô é um meio bem mais caro e que precisa ser subsidiado. Acho que a população não está sabendo que ela terá que pagar por esse subsídio”.
Seria oportuno ouvir as ponderações do ex-prefeito de Curitiba, responsável pela introdução de muitas inovações urbanísticas que funcionaram (outras nem tanto), se a implantação do sistema metroviário teria sido uma solução inteligente na Curitiba das décadas de 70 e 80, quando a cidade começou a ganhar a fisionomia que apesar das modificações, supressões e acréscimos inevitáveis nos períodos posteriores, ostenta até hoje. Certamente ele teria razões para argumentar que as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro iniciaram a construção de seus metrôs, mais ou menos na mesma época, e até agora não conseguiram completá-los, arcando com custos cada vez mais proibitivos. No entanto, seria obrigado a dizer o mesmo sobre o constante aperfeiçoamento do sistema de superfície.
Lerner frisou que cidades maiores que Curitiba (Seul, Bogotá e Cidade do México), por exemplo, “estão adotando o sistema aplicado em Curitiba”, decerto se referindo ao sistema de transporte urbano local. E, ainda por cima, se permitiu derramar alguns respingos de seu aprendizado em geopolítica: “Então por que nós vamos copiar uma solução de fora? País subdesenvolvido é aquele que compra como última novidade o obsoleto. Nós estamos tentando comprar uma coisa que não existe mais”.
É deveras instigante a observação de Lerner sobre a putativa obsolescência do sistema metroviário, muito embora fosse imprescindível para a complementação desse arrazoado, levar em conta as opiniões dos administradores dos metrôs de Londres, Paris, Roma, Madri, Lisboa e tantas cidades mundo a fora que já tratavam da instalação do sistema, quando cá por essas bandas o modernismo entrava em cena na forma de desengonçados e ruidosos bondes elétricos.
Na fértil vertente do pensamento sobre a cidade moderna e funcional, em sua visão aquela que propicia aos cidadãos a agregação das estruturas de vida e trabalho, o ex-governador adicionou um problema que afeta hoje todas as cidades do planeta: as drogas. Como raramente a administração pública tem sensibilidade para detectar determinados aleijões ainda em fase embrionária, é possível conjecturar que tal problemática estivesse ausente das preocupações dos prefeitos das grandes cidades nas últimas décadas do século passado. Numa espécie de penitência procrastinada, Lerner preferiu a platitude: “O que podemos fazer é minimizar com consciência e educação às crianças. Outra opção seria a criação de empregos nas favelas, fazendo com que a droga não fosse uma alternativa de renda”.
Pessoalmente o planejador urbano de rodagem internacional acha que mais cedo ou mais tarde o problema da droga deverá ter tratamento igual ao concedido pelos governos ao alcoolismo, “regulamentado por lei e cuidado por meios que possibilitem descriminalizar o consumo”.