Ivan Schmidt
Vinte anos constituem dois terços do tempo necessário para formar uma geração. É, portanto, bastante tempo. Mas, nem tanto para levar-nos a esquecer as acontecências mais relevantes do período, ao avivar a memória dos que por ofício ou prazer diletante se debruçam sobre a história imediata. As páginas dos jornais e revistas estão cheias de reminiscências dos últimos vinte anos, uma delas, talvez a mais lastimável, a morte de Tancredo Neves pouco depois de ter sido eleito presidente do que batizou de Nova República.
Estávamos em 1985 e o País dava adeus ao (também) não pequeno lapso de vinte anos, ao longo dos quais o governo foi exercido por generais – Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo (o que saiu pela porta dos fundos do palácio). O fim do ciclo do generalato deu-se quando Paulo Maluf encasquetou que seria o sucessor de Figueiredo.
O fuzuê cívico foi armado e a reviravolta não demorou. Os caciques do PDS, gente da melhor qualidade como Sarney, ACM, Jorge Bornhausen e Marco Maciel, num lance de raro patriotismo, aplainou o caminho para a organização da Aliança Democrática, pouco depois transformada em Partido da Frente Liberal. O jornalista Mino Carta costuma chamar o que ocorreu em seguida de ?conciliação das elites?, e o fez ainda agora na CartaCapital desta semana.
Para o PMDB e a turma que estava no PP de Tancredo Neves, mas havia regressado, foi sopa no mel. A chapa Tancredo-Sarney foi lançada para concorrer na eleição indireta com Maluf, cuja argumentação foi de tal maneira convincente que o baixo clero arenista (é verdade, ele sempre existiu) deu um chega pra lá na candidatura abençoada pelo círculo castrense, a do ministro Mário Andreazza, na época ainda coronel.
O façanhudo Maluf tantas fez que acabou ficando sem pai nem mãe, enquanto a candidatura de Tancredo crescia a olhos vistos, embalada por uma campanha digna de eleição direta. No colégio foi um verdadeiro baile e todo o País festejou a vitória espetacular, o fim da ditadura e a ansiada volta das eleições diretas para presidente da República, direito que os militares supunham ser conflitante com a formação democrática da nação, ainda não se conhecem os motivos, desde 1964.
Qual não foi a torturante surpresa coletiva, quando um dia antes da posse, a 15 de março de 1985, Tancredo é levado às pressas para o Hospital de Base de Brasília, atacado, segundo se disse, por uma crise de diverticulite, incômodo denominado pelos antigos de nó nas tripas.
Na hora da posse, quem estava lá envergando a faixa e fazendo o juramento constitucional era o senador José Sarney, um dos políticos mais íntimos do estamento militar, tanto que até pouco antes exercera a presidência do Partido Democrático Social (PDS), sigla erigida pelos áulicos do Planalto para gerir a massa falida da encabulada Arena. Poucas vezes se viu algo parecido na política brasileira, assim como nunca dantes foi preciso fazer mudança tão drástica para ficar tudo rigorosamente igual.
Há teimosos e saudosistas empedernidos, cuja boca torta assim ficou pelo seguido uso do cachimbo dos regimes de exceção, a proclamar loas aos tempos anteriores a 1985, quando um dos lemas preferidos – estão lembrados? – era o ?ame-o ou deixe-o?. Pois sim.
A purgação foi muita com o calvário e a morte de Tancredo, a primeira grande comoção nacional desde o suicídio de Vargas. Protótipo do ?estadista? latino-americano, figura que salta dos romances de Augusto Roa Bastos, sempre enfarpelado num jaquetão elegantíssimo, cabelos colados ao crânio por lauta dose de brilhantina e o farto bigode a encimar a boca larga, José Sarney era e é – pasmem – poeta e escritor! Um legítimo coronel do sertão ilustrado pela erudição dos livros, pela vocação acadêmica, pela fleuma do sobrenome construído com base na corruptela resultante de ?sir? e Ney (seu avô), segundo a lenda, capataz dos engenheiros ingleses encarregados da construção do porto de São Luís do Maranhão.
Sarney é um homem de sorte. Na presidência, não houve escrúpulos para demovê-lo da conquista do quinto ano de um mandato de apenas quatro. E foi a Paris comemorar os 200 anos da Revolução Francesa, a convite de Miterrand, chefiando imensa delegação de basbaques, cuja cubagem de champanhe começou a ser ingerida antes de o avião presidencial decolar. Certo dia, ainda no início do mandato recebido de graça, saiu-se com a expressão ?liturgia do cargo? referindo-se a si próprio com a indulgência do mais puro raposismo. Como nunca, essa pérola caiu tão bem em paletós de fino tropical inglês e colarinhos impecáveis.
Se mais não fez, Sarney teve descortino para não atrapalhar o desempenho da Assembléia Nacional Constituinte comandada por Ulysses Guimarães, a quem o povo queria na presidência da República. Aproveitou para construir uma bancada pessoal, mas, em compensação, deu motivos para a eleição de Fernando Collor, playboy etiquetado como o primeiro presidente eleito por voto direto após a redemocratização. Depois, ainda duvidam que o Brasil tem praga de mãe.
Ivan Schmidt é jornalista.