A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, depois de ampla discussão, rejeitou por 228 a 205 votos o pacote de emergência de US$ 700 bilhões proposto pelo governo Bush para evitar a derrocada ainda mais fragorosa dos bancos de investimento e as conseqüências devastadoras sobre a economia globalizada. Houve uma pequena amostra da aspereza da crise nas quedas acentuadas do Índice Dow Jones (6,98%) e Nasdaq, índice de ações das empresas de tecnologia (9,14%), com reflexos em cascata registrados nas principais bolsas de valores de países da União Européia e da Ásia.
Na segunda-feira, depois de vários meses sem sobressaltos, a Bolsa de Valores de São Paulo foi obrigada a interromper as negociações por trinta minutos quando o Índice Bovespa acumulou perdas avaliadas em 10%, encerrando o dia com a desvalorização de 9,36%.
Depois da Segunda Guerra Mundial, esse está sendo o golpe mais severo sobre a economia norte-americana, levando muitos analistas a fazer conjecturas sobre a extrema dificuldade que o sistema capitalista terá de enfrentar para a recuperação de sua credibilidade. Apesar dos apelos candentes do presidente George W. Bush, sequer os representantes do Partido Republicano acreditaram nas boas intenções do pacote governamental costurado às pressas pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, e pelo presidente do Federal Reserve (FED – o banco central norte-americano), Ben Bernanke. Os votos contrários à ratificação do plano foram dados por 133 republicanos e 95 democratas, ao passo que 65 republicanos e 140 democratas optaram pela aprovação. Eram necessários, entretanto, 218 votos favoráveis para que o pacote fosse aprovado.
O dado a ser considerado é que a facção mais radical dos republicanos, o tipo de político norte-americano que há alguns anos era apelidado de “falcão”, desde o início dos debates firmou uma posição contrária à concessão da ajuda governamental aos banqueiros, argumentando que a medida consistiria num autêntico cheque em branco passado ao sistema financeiro, quando pouquíssima atenção estava sendo dada aos contribuintes. Alguns deputados chegaram a afirmar que a concessão do empréstimo, no valor de US$ 700 bilhões, teria obrigatoriamente de ser compensada com a elevação da carga tributária sobre pessoas físicas. Milhares de telefonemas e e-mails protestando contra o pacote foram disparados para os gabinetes do Capitólio, fornecendo o lastro que a maioria dos congressistas procurava para votar contra a proposta do presidente Bush.
Os analistas têm pontos de vista coincidentes sobre a magnitude da crise, mas começam a levantar a ponta do tapete sobre o qual se procurou esconder a escória. Segundo Kevin Connolly, correspondente da BBC em Washington, a maioria dos cidadãos do país está convencida de que a crise foi criada pelos próprios banqueiros, que agora querem “contar com a permissão de bater a carteira dos eleitores”. A impressão mais forte é que o governo perdeu muito tempo em tergiversações em vez de atacar a crise no mercado de hipotecas no nascedouro. Nesse exato momento, a poucos meses do final do mandato e com a popularidade rolando despenhadeiro abaixo (apenas 30% de aprovação), nenhum outro presidente da República justificou tanto como George W. Bush a pejorativa qualificação de “pato manco”.
A rejeição do pacote de emergência com o elevado número de votos concedidos por republicanos (133), é a eloqüente certificação do desgaste político do presidente e da absoluta falta de credibilidade que desfruta entre os componentes da bancada federal do partido. No discurso emocionado de ontem, Bush lembrou que o custo da quebradeira dos bancos pode ser pior para o contribuinte que os US$ 700 bilhões previstos no empréstimo de emergência. E as perspectivas são as piores possíveis, pois “se nosso país continuar nesse caminho o impacto será doloroso e duradouro”, garantiu o presidente, citando ainda que as perdas no mercado financeiro são de US$ 3 trilhões. Na verdade, valor muito superior ao montante que o governo queria repassar aos bancos ameaçados pela vingativa espada de Dâmocles.