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O depoimento do ministro da Defesa, Nelson Jobim, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Grampos, adiado para esta quarta-feira, dia 17, por um inesperado surto alérgico, afinal, esclareceu ou toldou ainda mais a possibilidade de compreender o dramalhão criado pela interceptação clandestina de uma conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO)? Segundo as versões correntes, ainda não comprovadas ou desmentidas, a interceptação teria sido realizada por um araponga transplantado do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) para sua versão edulcorada, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Quando o petardo estourou no Planalto, a medida administrativa imediata foi o afastamento do diretor Paulo Lacerda, que antes desempenhara o cargo de diretor-geral da Polícia Federal. O motivo para o afastamento temporário de Lacerda, segundo se ventilou na ocasião, se deveu à informação passada por Jobim ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a seis ministros integrantes do conselho político do governo, de que a Abin havia feito a aquisição de equipamentos tecnológicos capazes de fazer a interceptação de telefonemas. Pouco depois, o informe ministerial foi contestado em seqüência pelo comandante do Exército, general Enzo Peri, pelo general Jorge Félix, ministro-chefe da Gabinete da Segurança Institucional (GSI), e ainda pelo diretor afastado da Abin, Paulo Lacerda, que admitiram perante a mesma CPI dos Grampos a compra das discutidas “maletas”, embora tivessem assegurado que a única função conhecida do equipamento é a realização de varreduras.

Nesse intervalo, o fabricante do equipamento, a Research Electronics International (REI) reiterou a quem interessar possa que o Oscor-5000 (identificação do aparelho adquirido pelo Exército e Abin) não foi desenvolvido para fazer interceptações telefônicas, tendo em vista que sua concepção tecnológica está limitada apenas à identificação de escutas clandestinas, popularmente conhecidas como varreduras. Vai daí, é provável que na algaravia de quarta-feira passada, o ministro da Defesa viu-se na obrigação de tornar menos inabalável a convicção manifestada duas semanas atrás, reconhecendo que seus informantes haviam dito que os aparelhos podiam realizar escutas clandestinas. O ministro mesmo, entretanto, não tinha certeza absoluta disso.

Dias antes do depoimento, a última edição da revista Carta Capital, na matéria de capa assinada pelo jornalista Leandro Fortes, já dizia que por essas e outras “Jobim anda em baixa dentro do governo”, a ponto de o Plano Estratégico de Defesa Nacional que seria anunciado no desfile de 7 de setembro na Esplanada dos Ministérios, ter sofrido um adiamento indefinido por razões ainda não esclarecidas. A matéria levantou um senão questão que é pura ironia: “Nada mau, ao se levar em conta que a alternativa de se fazer uma festa para lançar um plano elaborado por um ministro de Defesa aparentemente incapaz de verificar a diferença entre um aparelho de escuta comprado pelo Exército brasileiro, subordinado a ele, e um equipamento de varredura telefônica”.

Diante da medida hoje considerada plenamente dispensável do afastamento, mesmo temporário, do delegado Paulo Lacerda da chefia da Abin, o expediente encontrado pelo titular da Defesa para tornar menos hilariante a autêntica operação tabajara à qual foi induzido o presidente da República, tirando do serviço um policial respeitado pela corporação como um dos mais íntegros e preparados da história da Polícia Federal, foi derramar lágrimas de crocodilo e sacar da matalotagem o farisaico argumento de que a Abin jamais poderia ter liberado servidores de seu quadro para atuar na Operação Satiagraha, sem dar ciência às autoridades superiores.

Enquanto isso, a sociedade aguarda notícias sobre a serventia das investigações que levaram à prisão o banqueiro Daniel Dantas, aonde nem chegou a esquentar a cela. As autoridades superiores nada têm a dizer?

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