“Você diz a toda gente / que eu sou moreno demais…”. A canção Preconceito, de Marino Pinto e Wilson Batista, samba da década de 1940, continua atual. Os atos de racismo denunciados pelo cantor Dudu Nobre, sua esposa Adriana Bombom e um produtor musical, são surpreendentes pelo local onde ocorreram, pelas pessoas que promoveram e pela reação gerada.
Dudu e Adriana voltavam, com as filhas, de Nova York, em vôo da American Airlines – a mais importante companhia aérea dos Estados Unidos, o país que elegeu há duas semanas um negro, Barack Obama, para ser o próximo presidente. Vinham de uma cidade com forte presença de negros, com tremenda influência cultural e urbana das regiões do Bronx e do Harlem.
Mesmo assim, o cantor e a modelo foram ofendidos por dois comissários de bordo, que xingaram Adriana Bombom de “estúpida” e “babaca” e fizeram imitações de macaco para Dudu Nobre. Além disso, um comissário chamou o cantor para a briga, e atacou o produtor que viajava com eles.
Uma situação que imaginávamos não mais acontecer. Sabe-se que há preconceito, mas a cor de pele influencia cada vez menos. Para algumas pessoas, o que distingue a pessoa “boa” da “ruim” é a quantidade de dinheiro que ela tem na conta. Seja branco, negro, pardo ou oriental, o importante para muitos é ser rico – isto “abre portas” em qualquer lugar.
Dudu e Adriana são bem-sucedidos em suas carreiras. Ele é um dos compositores mais importantes do samba da atualidade, ela é modelo e é considerada uma das mulheres mais bonitas do Brasil. São famosos. Têm dinheiro. Na teoria, teriam acesso “vip” em restaurantes, boates e nas companhias aéreas.
Mas, para alguns, eles ainda são um entrave. Afinal, são negros. E em uma das reações mais irracionais que um ser humano pode ser capaz de ter, os comissários os insultaram apenas por causa da cor da pele. E muitos nem se incomodam com isto. Talvez porque, esquecidos da raiz mestiça do brasileiro, não saibam que, como já falavam Marino Pinto e Wilson Batista, o coração não tem cor.