Ivan Schmidt

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Não sei que outra evocação poderia ser acionada para melhor compreender o contexto político brasileiro, que o jornalista norte-americano H.L. Mencken (1880-1956), iconoclasta, destruidor de mitos, ídolo popular e intelectual mais influente na sociedade de seu país até o início da década de quarenta do século passado.

Na última coluna escrita para o jornal Sun, em 1948, Mencken foi agressivo com as autoridades de Maryland, por causa da prisão de um grupo integracionista de brancos e negros que jogava tênis numa quadra de Baltimore. ?Já é tempo de que as relíquias da Ku Klux Klan, agora sob os auspícios oficiais, sejam varridas desse estado?, escreveu. A referência encontra-se no prefácio assinado por Ruy Castro para a edição brasileira d?O livro dos insultos (Círculo do Livro, SP), obra lançada por Mencken em 1916, cujo sucesso se comprova pelas sucessivas reedições até 1949.

É fácil imaginar o que escreveria sobre as cenas pungentes da política brasileira o jornalista impregnado por vitríolo puro como o foi Mencken. Entretanto, por justiça, façamos o devido esclarecimento: jamais o demolidor atacou alguém gratuitamente ou movido por qualquer discriminação ou arrogância. Mencken dirigia sua metralhadora contra os falsos, cínicos e fingidos que pontificavam no chamado estado das artes do american way of life, alvejando sem piedade os que faziam por merecer.

Figuras como Paulo Maluf, Severino Cavalcanti, Roberto Jefferson, José Dirceu e quejandos seriam fulminadas por dois ou três parágrafos escritos por Mencken, que, a rigor, trabalhou nos melhores jornais dos Estados Unidos mas foi demitido de todos. Sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem é bom pensar no que brotaria do teclado da máquina portátil com a qual Mencken escrevia sua newsletter semanal, pois durante muitos anos nenhuma empresa jornalística se atreveu a contratá-lo.

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Diante da insistência com que o deputado Severino Cavalcanti, para citar ao acaso, proclama conduta ilibada no rififi levantado pelo proprietário do restaurante do anexo 3 da Câmara dos Deputados, talvez Mencken indicasse a leitura do que escreveu sobre o tipo de pessoa que se apresenta como dona da verdade: ?O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem o menor respeito por ela?.

Mencken atribuía sentido inflexível a esse valor humano: ?A verdade não é uma coisa que rola por aí, como dinheiro trocado; é algo para ser acalentado, acumulado e desembolsado apenas quando absolutamente necessário?. Ou seja, verdade não é – em absoluto – essa moeda gasta e fútil que uns e outros exibem com a ligeireza do gato que tira castanhas da brasa.

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Num plano que também nos diz respeito, constatar a onipresença do governo na vida dos cidadãos leva-nos a reconhecer a lucidez de Mencken e sua inegável premonição. Basta pensar um pouco na seguinte afirmação: ?Todo governo, em essência, é uma conspiração contra o homem superior: seu objetivo permanente é o de oprimi-lo e manietá-lo?. O governo, portanto, para evitar a invasão de suas prerrogativas, arma-se de todas as precauções e artifícios, sobretudo quando se sente ameaçado, dizia, pelo homem ?capaz de pensar por si próprio?. Assim, ?quase inevitavelmente, este homem chega à conclusão de que o governo sob o qual vive é desonesto, insano e intolerável – e, assim, se for um romântico, tentará mudá-lo. Mesmo que ele não seja pessoalmente romântico, estará apto a disseminar o descontentamento entre os que o são?.

Os olhos de Mencken pareciam pousados sobre páginas de jornais brasileiros quando escreveu que ?o governo é visto, não como um comitê de cidadãos escolhidos para tocar os negócios comuns a toda população, mas como uma corporação separada e autônoma, devotada em primeiro lugar a explorar em proveito de seus próprios membros?. A afirmação seria risível se, por outro lado, não vivêssemos a tragédia colossal das perdas políticas e sociais espetadas no passivo da cidadania, no caso brasileiro, os 53 milhões de eleitores que autorizaram a formação do atual comitê.

Quando um cidadão comum é assaltado, Mencken admitia isso como privação de parte dos frutos do trabalho individual. Mas, quando o governo é roubado, ?o pior que pode acontecer é que certos patifes e tratantes fiquem com um pouco menos de dinheiro para brincar do que tinham antes?. A capacidade do iconoclasta chega ao limite da ironia ao proclamar que ?todo governo é composto de vagabundos que, por um acidente jurídico, adquiriram o duvidoso direito de embolsar uma parte dos ganhos de seus semelhantes?.

Mencken é leitura recomendável para quem não mais esconde o nojo ante as maranhas protagonizadas pelos beneficiários do acidente jurídico. Para eles, o jornalista aponta o remédio, felizmente, oferecido pela democracia: ?Ela não exalta os parvos, os covardes, os oportunistas, os pilantras e os blefes? Sim, mas a tortura de vê-los subir na vida é compensada pela alegria de vê-los cair do galho?.

Ivan Schmidt é jornalista.