Verdade e ética

?O mais inviolável dos deveres do homem público é o dever da verdade: verdade nos conselhos, verdade nos debates, verdade nos atos, verdade no governo, verdade na tribuna, na imprensa e em tudo verdade.?

Rui Barbosa-1920

Quase um século depois, exatamente 85 anos, as palavras de Rui marcam profundamente o cenário contemporâneo da vida pública nacional. Onde a verdade é agredida em todos os níveis. Onde a mistificação e os falsos valores são festejados à exaustão. Passando a ser regra comum a negação da verdade. Festeja-se a mentira com pompa oficial. Espancam a verdade, de acordo com os interesses em jogo. Mente-se com solenidade. A mentira passou a ser consagrada como ato de inteligência.

Na vida pública, em todos os níveis, o dever da verdade está ficando coisa relativa. Ao contrário do que pregava o ?Águia de Haia?, o mais inviolável dos deveres do homem público é o dever da verdade.

A verdade nos debates, a verdade na tribuna, a verdade no governo são enunciados irrevogáveis e que deveriam ser cumpridos com rigor franciscano. Diferentemente do que acontece nos dias atuais.

Diante dessa triste realidade a sociedade queda-se perplexa e frustrada. Atividade pública passou a ser um quase sinônimo de locupletação dos bens públicos. E a cada eleição, ao invés de melhorar, a fisiologia passou a ser prática normal e comum. Os homens públicos íntegros e que fazem política no objetivo de servir são marginalizados e colocados à margem. Enquanto os espertos e vivaldinos transformam-se em grandes articuladores e, alguns, figuras notáveis desses tristes e melancólicos novos tempos.

Muitos, de maneira equivocada, lançam epítetos condenatórios do processo democrático. O que não corresponde à verdade. Ao contrário, é a democracia que faz brotar as deformações do poder.

Presidente da República, derrubado pela Revolução de 30, Washington Luiz, após 17 anos de exílio, retornou ao Brasil em 1947. Entrevistado por um jornalista do Correio Paulistano e indagado da diferença entre o passado e o presente, respondeu:

– Antigamente, faziam-se eleições desonestas para eleger homens honestos. Hoje, fazem-se eleições honestas para eleger desonestos.

A sentença cruel do último presidente da República Velha carrega uma carga de preconceito muito grande. Parcialmente, contudo, não deixa de expressar uma verdade que inquieta. O que serve para demonstrar que é recorrente na vida pública nacional essa prática nefasta.

Sem nenhuma dúvida, na contemporaneidade a atividade política passou a significar incorporação patrimonial para os velhos negocistas. Investem-se, compram-se, transacionam-se mandatos no mercado eleitoral em autêntico vale-tudo. Os aventureiros da política têm um terreno fértil e adubado para comprar mandatos. Vem a ser um investimento com retorno certo e garantido.

Os homens públicos, éticos e sérios passam a conviver com esses corsários políticos em um clima de constrangimento insuportável. Muitos, decepcionados, abandonam a atividade. Outros se frustram carregando uma amargura que salta aos olhos. Enquanto os audaciosos negocistas escalam posições de encastelamento na máquina administrativa do poder. Preferencialmente nas diretorias de poderosas empresas públicas e órgãos ministeriais que manipulam abundantes orçamentos.

Daí a sucessão interminável de escândalos e denúncias que a imprensa veicula sem que os culpados sejam alcançados. O novo escândalo abafa o anterior e assim segue a roda viva da corrupção. A impunidade se encarrega de dar foros de legitimidade aos ilícitos praticados.

É um tempo terrível. Por isso mesmo é preciso combatê-lo. Eis uma cruzada a que os homens e mulheres de boa vontade não podem se negar. Até porque aceitar de braços cruzados essa conjuntura é não conhecer que não há mal que sempre dure.

Na velha Inglaterra, quando se vivia um cenário público parecido com o que ocorre no Brasil atual, foi Lord Chesterton quem convocou a sociedade, proclamando:

– Quando os homens e as mulheres de bem cruzam os braços, os canalhas ocupam o lugar.

No Brasil contemporâneo, contemplar a realidade política chega a ser desesperador. Mas longe está de se perder a esperança. Somente pela política é que se pode alterar essa monstruosa realidade. Daí a importância dos homens e mulheres com vocação e consciência pública enfrentarem com destemor e altivez os marginais da política. Em nome da própria dignidade nacional.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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