O presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu tornar público um anseio pessoal, sobre o qual nenhum brasileiro com um mínimo de conhecimento das artimanhas da política, incluindo a incrédula velhinha de Taubaté, alimentava quaisquer dúvidas. Em entrevista à rádio Globo AM, do Rio de Janeiro, retransmitida por 34 emissoras para todo o País, Lula afirmou que sonha com a candidatura presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, admitindo que a tarefa de elegê-la, porém, é gigantesca: “Todo mundo sabe que tenho a intenção de fazer com que Dilma seja candidata do PT e dos partidos (da base), mas se ela vai ganhar vai depender do trabalho de cada brasileiro e de cada brasileira”.
Extremamente habilidoso na enunciação de seu pensamento político, escola que frequentou com capricho desde os ásperos tempos de militância sindical e, mais tarde, da organização do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula não poderia perder a oportunidade para partilhar o desafio com “cada brasileiro e cada brasileira”, referindo-se não apenas aos milhões de beneficiários do programa Bolsa Família, que há algumas semanas o insuspeito Frei Betto etiquetou de “eleitoreiro”, sob pesado silêncio do governo.
O presidente decerto tinha outra determinação em mente e dela se desincumbiu com a versatilidade costumeira, acrescentando a seu apelo as amplas camadas da classe média que não se sentem sensibilizadas pelo estilo tucano de fazer política. Não foi por outro motivo que o presidente aproveitou para afiançar, num raciocínio paralelo, que o pré-candidato mais forte das oposições para 2010, o governador José Serra, perderá parte do discurso agressivo contra a política econômica do governo. Tendo em vista a esperada recuperação da economia nos próximos meses, os principais operadores políticos de Lula garantem que a oposição não terá argumentos suficientes para forçar a barra contra a atuação da administração federal.
Lula não se fez de rogado e declarou que seu candidato preferencial para a vice-presidência é o governador fluminense Sérgio Cabral, subscrevendo a tese da dobradinha com o PMDB. É possível que a preferência resulte em algum mal-estar no plano interno do governo, porquanto o pretendente declarado ao posto, com o apoio unânime dos controladores da azeitada máquina peemedebista, é o ministro Geddel Vieira Lima, da Integração Nacional. O governador do Rio, ao que se sabe tem declarado enfaticamente o interesse pela reeleição, mesmo enfrentando o percalço momentâneo da queda livre de seus índices de popularidade. Em março, a pesquisa Datafolha mostrou que a aceitação popular do governador Sérgio Cabral somente superava a da governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB), imersa numa crise iniciada poucos dias depois da posse.
Assessores do presidente lembram que Cabral poderá mudar de ideia diante do potencial de crescimento da candidatura de Dilma, que a última pesquisa CNT-Sensus revelou estar com 16,3% das intenções de voto (em segundo lugar), embora ainda distante dos 45,7% abiscoitados pelo governador José Serra. Um ministro do núcleo duro do governo já afirma que a candidatura da colega é “imbatível”, pegando carona no convencimento de Lula sobre as chances da ministra embalar e liquidar a fatura no primeiro turno. Pitonisas do Planalto arriscam o prognóstico de Dilma chegar à virada do ano com 20% das intenções de voto. Caso isso aconteça, diz-se com indisfarçável deslumbramento, não tem pra ninguém.
Enquanto isso está em marcha a operação para colocar na presidência nacional do PT, o chefe de gabinete de Lula, o paranaense Gilberto Carvalho. A sugestão foi referendada pela própria Dilma em recente encontro com a bancada de deputados federais do partido, em Brasília. Segundo ela, nesse momento, Carvalho é fundamental para construir a unidade partidária. Lula aparentemente não pretende liberar o colaborador, mas a desenvoltura da chefe da Casa Civil ao tratar do assunto, foi tomado por argutos petistas como sinal de que coisa alguma impedirá a transferência estratégica.