Nenhum analista internacional, apesar da quantidade exagerada desses formuladores de teses acadêmicas disseminados em centros de estudos, universidades, publicações específicas e na imprensa em geral, será capaz de dar uma explicação cabal sobre as razões de tantos encontros de cúpula de dirigentes das economias industrializadas, em fase de desenvolvimento (os chamados emergentes) e, até mesmo dos países situados na periferia dos centros que exercem (ou exerciam) completo domínio sobre as finanças globais.
Em defesa desses intelectuais, alguns deles respeitadíssimos pelo elevado nível de credibilidade de suas análises, deve-se dizer que a incapacidade de elaborar a explicação definitiva não é resultado de algum bloqueio mental inesperado, mas pura e simplesmente da absoluta ausência de temas relevantes na agenda de debates dos referidos encontros.
O exemplo mais recente está na 5.ª Cúpula das Américas, encerrada domingo em Porto of Spain, capital da república caribenha de Trinidad e Tobago, na qual o presidente norte-americano Barack Obama saiu consagrado pelo aplauso de todos os líderes da esquerda na região, depois de ter apresentado os pontos fundamentais da política externa de sua administração para a América Latina. Único país ausente da cúpula (Cuba), como era de se esperar, ocupou grande parte do tempo destinado aos debates, sobretudo após as manifestações favoráveis do presidente Obama quanto à busca de novos parâmetros de convivência dos Estados Unidos com o restante das economias regionais.
Os observadores não deixaram de registrar em suas anotações o clima visível de contentamento entre grande parte dos líderes políticos reunidos em Porto of Spain desde sexta-feira da semana passada, identificando sinais positivos de uma “nova era de relacionamento entre os Estados Unidos, Cuba e Venezuela”. Um desses reflexos foi visto nos abraços e apertos de mão entre os presidentes Barack Obama e Hugo Chávez, que presenteou o colega de Washington com um exemplar do livro Veias abertas da América Latina, escrito há trinta anos pelo uruguaio Eduardo Galeano e, desde então adotado como uma espécie de manual não autorizado pelos políticos de esquerda na América Latina.
Todavia, ainda não se sabe quanto tempo se deverá aguardar por providências não meramente discursivas para o início dos entendimentos com o governo cubano, mesmo diante das bombásticas declarações do presidente Raúl Castro, na véspera da cúpula, enfatizando que seu governo está preparado para discutir quaisquer temas de interesse de Washington, incluindo direitos humanos e liberdade de expressão, embora nada tivesse declinado a respeito da imediata libertação das centenas de condenados por delitos de opinião pela ditadura castrista.
Pelo menos para um representante do Partido Republicano, o senador John Ensign, os salamaleques entre Obama e Chávez foram consideradas uma “irresponsabilidade” do presidente norte-americano, tendo em vista que no enfoque da oposição o formulador do pretendido socialismo bolivariano para o século 21, “é um dos líderes mais antiamericanos do mundo”. A resposta de Obama não tardou e o presidente insistiu na necessidade de desobstruir os canais do diálogo construtivo com governantes da América Latina, de modo especial, com a Venezuela. E não perdeu a oportunidade de enquadrar a retórica ultrapassada do indigitado falcão: “É improvável que apertar a mão ou ter uma conversa educada com Chávez seja uma ameaça aos interesses estratégicos dos Estados Unidos”.
A doutrina Obama para a América Latina fez enorme sucesso entre os governantes da região e passou a contar com o entusiasmo irrestrito do “revolucionário bolivariano” Hugo Chávez, para quem as diferenças ideológicas não devem impedir as nações de buscar objetivos comuns. A Casa Branca prometeu ir além dos sorrisos e fotos oficiais. Os analistas, com razão, aguardam os próximos atos.