Hélio Duque

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No seu livro clássico O primo Basílio, a genialidade de Eça de Queiroz criou um extraordinário personagem: o Conselheiro Acácio. O uso corrente da expressão acaciano foi incorporado ao linguajar da língua portuguesa. É o personagem intelectualmente vazio e especialista em dizer o óbvio, com estilo de falso puritano. Na vida brasileira contemporânea os Acácios se multiplicam e ignorando a realidade concreta despejam conceitos e formulam propostas convencidos da certeza e verdade que acreditam monopolizar. Os novos Acácios investem com força de um touro miúra, manipulando argumentos e afirmando conceitos equivocados destinados a dar sustentação a uma suposta verdade. Gerada no próprio vazio de uma ignorância que se credita, por razões várias, ser o farol a iluminar o caminho que a sociedade deve trilhar. Os novos Acácios são vanguardistas do atraso.

Recentemente, chegou às minhas mãos um texto acadêmico carregado de equívocos e agressor à verdade. Nele se dizia que a Companhia Vale do Rio Doce tinha como sócios majoritários grandes grupos multinacionais. Fruto de uma privatização polêmica, ocorrida há dez anos, aquela empresa minerífera deixou a órbita estatal, passando ao controle privado. Seria de fato verdadeiro o falacioso argumento da maioria do seu controle acionário estar em mãos de grandes multinacionais? Teria o Brasil entregue as suas monumentais reservas de minério ao capital internacional? Estaria fora das fronteiras nacionais o majoritário controle dessa empresa fundamental para o desenvolvimento nacional?

A resposta direta às três indagações é não. Então resta indagar: quem, de fato, é o dono da Vale do Rio Doce? O seu controle acionário estaria em mãos de poderosos grupos privados nacionais? Ou, ainda, esse controle estaria a integrar um cruzamento de ações e de investimentos representados por capitais nacionais e internacionais?

Vamos lá, em nome da realidade objetiva que não admite a disseminação dos argumentos do Conselheiro Acácio. A empresa tem como proprietários 500 mil acionistas, solidamente representados no seu controle acionário. O verdadeiro dono da Vale do Rio Doce são os fundos de pensão (Previ, Petros, Funcef, etc.), que através da ?holding? Litel detêm 52,98% da totalidade do seu capital. A isso some-se a participação do BNDESpar, com a totalidade de 9,47%. O Bradespar, do grupo Bradesco, tem uma presença de 17,44% e a ?trading japonesa? Mitsui fica com 15%. Os investimentos garantidos em lei, dos funcionários da Vale, respondem por 5,08%.

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A posição acionária no controle da Vale tem esse ?porfólio?, demonstrando que o seu centro de comando e divisão estão fincados, com raízes profundas e soberanas, majoritariamente no controle nacional. Hoje o valor de mercado da Vale do Rio Doce é estimado em 137 bilhões de dólares, sendo a segunda maior empresa mineradora do mundo. E a sua estratégia de crescimento, não somente internamente, mas, também, internacionalmente vem ocorrendo de maneira dinâmica. Há dez anos empregava 15 mil funcionários, atualmente são 55 mil empregados. A produção e exportação de minério, que tinha uma média histórica anual de 35 milhões de toneladas, atualmente essa média é de 165 milhões de toneladas.

A razão para essa espetacular performance está na prática de gestão eficiente e participativa, aliada a investimentos feitos com critérios econômicos e uma política agressiva de vendas. A consolidação de uma administração de resultados é a chave do êxito. Ela é conduzida numa dinâmica gestão compartilhada, onde os fundos de pensão presidem o conselho de administração e a gestão executiva é feita por administradores profissionais.

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Os fundos de pensão detendo 52,98% do seu controle acionário são os donos, de fato, da Vale. Acrescido da participação do BNDESpar e dos funcionários da empresa, que totalizam 67,53% do seu capital. O grupo Bradespar com seus 17,44% amplia a presença de capital nacional. O investimento externo se expressa nos 15% da japonesa Mitsui. São os fatos.

Hoje em todo o mundo desenvolvido os fundos de pensão já detêm o controle de grandes empresas. No Brasil, além da Vale, são inúmeras empresas em variados segmentos produtivos onde essa presença é crescente e tende a se ampliar. Transformaram-se em atores fundamentais para o desenvolvimento, seja nos EUA, Europa, Ásia ou Brasil. Ao invés de um único e poderoso investidor de capitais, as capitalizações da poupança individual compulsória para benefícios futuros erigiram os fundos de pensão em grande locomotiva do desenvolvimento mundial. O exemplo da Vale do Rio Doce se integra nessa nova realidade. A exemplo do que acontece na economia norte-americana, onde os fundos já detêm em patrimônio e investimento o valor global de 6,7 trilhões de dólares, para um PIB (Produto Interno Bruto) estimado em 13 trilhões de dólares. No Brasil, comparativamente ao nosso PIB, a participação desse novo ator econômico ainda é relativamente modesta, se comparada às economias do mundo desenvolvido. Mas irá se expandir nas próximas décadas, com ativa presença na economia brasileira.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.