Ivan Schmidt

continua após a publicidade

?O século está entrando numa barra pesada?, arriscava-se a sentenciar o cineasta Glauber Rocha, lá pelo final dos anos 60s, em longa entrevista publicada numa edição do ótimo Livro de cabeceira do homem, belíssima iniciativa da Editora Civilização Brasileira, dos irmãos Ênio e Breno Silveira.

Cerca de dez anos depois, saía pela Zahar Editores (RJ), a sétima edição daquele que seria um dos mais importantes livros de Herbert Marcuse, Eros e civilização. É possível fazer alguma ilação, mesmo não havendo a menor evidência, entre a tirada de Glauber e o livro de Marcuse, a quem certamente o polêmico criador do cinema novo conhecia suficientemente. Se estamos diante de fortuita coincidência intelectual, propõe o acaso a verdade que o século 20, àquela altura, estava mesmo em situação acabrunhante.

E agora, passados seis anos e meio de caminhada no século XXI, como estão as coisas? Quem responde é, ainda, o filósofo alemão radicado nos Estados Unidos, um dos pensadores mais lúcidos de seu tempo, autêntico desbravador de idéias então consideradas absurdas ou negativistas, guru de novos tempos, em imaginária entrevista. As perguntas são minhas. As respostas, claro, foram transcritas do livro citado acima.

P – Qual é a avaliação que o senhor faz do avanço tecnológico?

R – A tecnologia atua contra a utilização repressiva da energia, na medida em que reduz ao mínimo o tempo necessário para a produção das necessidades da vida, assim poupando tempo para o desenvolvimento de necessidades situadas além do domínio da necessidade e do supérfluo necessário.

P – E no plano mais familiar, por exemplo, a relação entre pais e filhos?

continua após a publicidade

R – Através da luta com o pai e a mãe, como alvos pessoais de amor e agressão, a geração mais nova ingressou na vida social com impulsos, idéias e necessidades que eram, em grande parte, de cada um dos jovens. Por conseqüência, a formação do superego, a modificação repressiva de seus impulsos, sua renúncia e sublimação, eram experiências muito pessoais. Por causa disso, sua adaptação deixou cicatrizes dolorosas, e a vida, sob o princípio de desempenho, ainda conservou uma esfera de não-conformismo privado.

P – O senhor está querendo dizer que estamos diante de uma evolução do conceito da luta entre as gerações?

R – Na luta entre as gerações, os lados parecem ter sido trocados: o filho é que sabe; é ele quem representa o princípio maduro de realidade contra as obsoletas formas preconizadas pelo pai. Este, o primeiro objeto de agressão na situação de Édipo, mais tarde mostra-se um alvo de agressão um tanto inapropriado. A sua autoridade como transmissor de riqueza, aptidões e experiências está grandemente reduzida; tem menos a oferecer e, portanto, menos a proibir.

P – Essa questão vista de outra forma, suscita outra. Será que a vida pode melhorar?

continua após a publicidade

R – Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais – e possuem automóveis particulares, com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema – que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações.

P – Afinal, essa perspectiva nos leva a compreender que há um custo a ser pago, sem esclarecer quem deve pagar. O senhor poderia nos ajudar?

R – O indivíduo paga com o sacrifício do seu tempo, de sua consciência, de seus sonhos; a civilização paga com o sacrifício de suas próprias promessas de liberdade, justiça e paz para todos.

A primeira edição do livro de Marcuse saiu, nos Estados Unidos, em 1955. Meio século depois, seu pensamento instigante assume cada vez mais um tom de profecia. Em meio a tanta balbúrdia, vale a pena ficar com os que pensaram a vanguarda da modernidade.

Ivan Schmidt é jornalista.