Dentre os costumes da vida republicana, se bons ou maus a resposta é do leitor, tirante os interregnos em que um lídimo filho do lumpen proletariat chegou ao ponto mais alto do poder, a Presidência, como é o caso de Lula, na maior parte do tempo a prerrogativa sempre pertenceu aos ungidos pela elite econômica e social.
Focalizando a república desde o final da Segunda Guerra, que marcou também o encerramento dos quinze anos da ditadura de Getúlio Vargas, observa-se que o sucessor, general Eurico Gaspar Dutra, favorecido pelo êxito da FEB na campanha da Itália, foi eleito pela coligação partidária que quatro anos mais tarde premiaria o ditador com a presidência constitucional do País que pusera de joelhos entre 1930 e 1945.
Numa análise fria, tanto Vargas quanto Dutra carregavam sobre si, com a ressalva das peculiaridades pessoais e contextos políticos, a chancela da elite, sem a qual não teriam condições de governar. Getúlio emergiu do longínquo pampa à frente do poderoso patronato rural até chegar à antiga capital, a cavaleiro do movimento revolucionário que apeou o presidente Washington Luís.
A literalidade do triunfo encontrou sua expressão no fato de alguns revolucionários chegados ao Rio terem amarrado seus pingos no chafariz então existente nas proximidades do Palácio Monroe, onde funcionava o Congresso Nacional.
Durante a chamada era Vargas testemunhou-se a quase completa submissão da camada rica e influente da sociedade, haja vista a verificação dos sobrenomes que usufruíram nas províncias o poder delegado. No retorno da democracia, são os mesmos a consolidar a estratificação nos principais postos de mando das três esferas de governo. O pai dos pobres foi endeusado como guia da nação até que os bons augúrios fossem interrompidos pela bala que dilacerou seu coração, na fatídica madrugada de 24 de agosto de 1954.
A elite, como sempre, reivindicou a governança da crise então instalada ao determinar o afastamento de Café Filho, o vice que assumira para concluir o mandato. Na seqüência removeu a tentativa de Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, de embargar a ação da classe dominante que, iluminada pelo espírito das leis, valeu-se do macróbio senador Nereu Ramos, preposto de Vargas em Santa Catarina e beneficiário da tradição conservadora de latifundiários e banqueiros, como executor da tarefa de preparar o País para a transição.
Nos quatro anos seguintes a presidência foi exercida por Juscelino Kubitschek de Oliveira, apesar dos constantes ataques desfechados pela velha UDN de guerra e conspiração. Como nunca a elite se encontrara de forma tão real com a felicidade reservada aos invictos.
Jânio Quadros, o tragicômico professor da Vila Maria, ex-prefeito e governador de São Paulo, demagogo e condoreiro, carregado pela massa humilde e respaldado pela classe média, suplantou o marechal Teixeira Lott, então considerado o melhor dos soldados brasileiros. Pouco depois, Jânio amargou o desprezo da elite e desembarcou no cais do Porto de Santos, subindo no primeiro navio para a Inglaterra.
O horror preconizado por Conrad veio com o golpe de 1964, mas não é esse o caldo que pretendo engrossar. Saltemos, portanto, o período castrense sequer lembrando os inúmeros quadros recrutados na sociedade civil para tornar menos rude o magma do regime de exceção.
Finda a noite de chumbo, a elite abancou-se em definitivo no poder que jamais deixou de acolitar. Desde então desfilou pelo Planalto o patrimonialismo mais rançoso, inaugurado por José Sarney e seguido por Fernando Collor, arautos da atrasada política coronelista. Fernando Henrique, de quem se esperava tanto pela prosápia da esperança afinal pisoteada na armação do segundo mandato, foi babujado pela elite mais que o príncipe da sociologia. Foi alçado ao nível de varão de Plutarco.
Como sempre a elite se inflama ante a perspectiva de cada nova eleição. Na próxima, a substituição de Lula não chegou (ainda) a ser questão prioritária. Até agora a política econômica não perturbou os ocupantes do andar de cima. Se vierem a mover algumas peças, talvez o façam para convencer o mundo civilizado que a democracia mostrou-se capaz de resistir ao que alguns pintaram como véspera do caos.
Mas, se não houve vento contrário, por que mudar a direção do barco?
Ivan Schmidt é jornalista.