Usinas empacadas

A safra correspondente ao ano agrícola 2008/09, em se tratando da cana-de-açúcar, terá um volume 13,9% maior que o total colhido na temporada anterior. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revela que o potencial de moagem será de 571,4 milhões de toneladas de cana para a produção de açúcar e álcool. Haverá um acréscimo de 80,1 milhões de toneladas destinados à produção de aguardente, rapadura e ração animal, totalizando 651,5 milhões de toneladas da respectiva planta.

As usinas vão processar 246 milhões de toneladas para a produção de açúcar, apurando ao todo 32,1 milhões de toneladas do produto, com o aumento de 2,6% em relação ao ciclo anterior. Para a produção de álcool, a disponibilidade será de 325,3 milhões de toneladas de cana transformadas em 26,6 bilhões de litros, com um aumento de 15,7% em relação à safra passada. Do total produzido, 10,1 bilhões de litros serão do tipo anidro e 16,5 bilhões do tipo hidratado.

O cultivo da cana-de-açúcar na safra atual cobrirá uma área equivalente a 8,5 milhões de hectares, pontificando a região centro-sul com capacidade instalada de esmagamento de 87,9% do total produzido no País (502,15 milhões de toneladas), restando às regiões Norte e Nordeste 12,1% do total (69,2 milhões de toneladas). O maior produtor continua sendo o Estado de São Paulo, com 340 milhões de toneladas de cana para a transformação em açúcar e álcool, ficando o segundo lugar com Minas Gerais, responsável pela moagem de 44,1 milhões de toneladas.

Os números complementares virão do Norte/Nordeste, que segundo a previsão da Conab deverá moer 69,2 milhões de toneladas de cana, com uma expansão de quase 5% sobre a produção do ano passado: serão cinco milhões de toneladas de açúcar e 2,28 bilhões de litros de álcool.

A excelente resposta dos produtores se deveu, em primeiro lugar, à intensa propaganda feita pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre as vantagens econômicas da produção de etanol como alternativa aos combustíveis fósseis e, ainda, à probabilidade real de conquistar fatias expressivas do mercado norte-americano. Contudo, o entusiasmo dos produtores pelo cultivo da cana ocorreu meses antes da explosão da crise financeira mundial, quando não havia o menor indício de que o cenário econômico fosse se transformar tão drasticamente. Hoje, a preocupação do setor sucroalcooleiro é com a incerteza já prenunciada na obtenção de financiamentos para a implantação de novas usinas ao longo do biênio 2010/11.

No entendimento de Marcos Jank, presidente da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica), a maioria dos empreendimentos previstos para aquele período dificilmente será viabilizada e, mesmo aqueles cuja execução está programada para ocorrer em 2009, correm o risco de serem entregues com atraso. Segundo a Unica, 35 novas unidades devem entrar em operação em 2009, 41 em 2010 e 19 em 2011. Jank explicou, porém, que as restrições ao crédito devem levar ao cancelamento de parte dos projetos. Entre 2005 e 2008, as novas unidades implantadas somaram investimentos de US$ 20 bilhões, demandando um acréscimo de R$ 11 bilhões entre 2009 e 2011 que, no entanto, será difícil de levantar.

Muitas empresas estão em dificuldades financeiras, conforme constatação da associação da categoria, havendo as que estão se obrigando a vender o etanol “a qualquer preço”, segundo Marcos Jank. Uma das saídas propostas pelo setor é a adoção de mecanismos para a estocagem do álcool com a finalidade de segurar os preços, muito embora o presidente da Unica discorde da afirmação de que se trata da salvaguarda do interesse das empresas em dificuldades. “Não estou defendendo 15% ou 20% das empresas que estão em dificuldades. Não queremos que as empresas sadias sejam afetadas”, comentou. O aumento da produção de cana atendeu a um apelo logístico do governo, que nesse momento de instabilidade não poderá regatear sua contrapartida.

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