Hélio Duque

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Na Idade Média surgiram as primeiras universidades na Europa, aflorando a importância da cultura, sobremaneira na filosofia e na escolástica. Igualmente a arte e a arquitetura gótica. As mais importantes foram as universidades de Bolonha (1088); Paris (1150); Praga (1348); Viena (1365) e Heidelberg (1386). Fundamentam-se na educação superior alicerçada no ensino e na pesquisa. O obscurantismo medieval, séculos depois, seria sepultado pelo Renascimento, que simbolizou uma fase de alargamentos nos limites humanos. Onde a crença na capacidade ilimitada da criação do ser humano era demonstrada. O estudo das ciências humanas e sociais, da biologia, da química, da física, da medicina e das novas teorias era gerado naquelas e outras universidades. A revolução do saber mudou o mundo ao proporcionar progressos técnicos inimagináveis. Como centro propulsor estavam as universidades.

Essas rápidas reflexões nasceram ao saber, recentemente, que entre as 200 melhores do mundo o Brasil tem a USP (Universidade de São Paulo) classificada no 196.º lugar. A América Latina só tem a Universidade Nacional Autônoma do México no expressivo 86.º lugar. Enquanto a China tem 10 universidades classificadas em posição honrosa. A Coréia do Sul tem três, Cingapura tem duas, a Malásia, Taiwan e a Tailândia classificaram uma universidade cada nesse ranking das melhores do mundo. Já a Índia classificou três. Isso falando numa região em desenvolvimento que é a Ásia. As universidades européias e norte-americanas ocupam a quase totalidade das que têm nível de excelência.

O fato em si, em relação ao Brasil, é muito sério. A sua mais importante universidade classifica-se no 196.º lugar, o que não deve ser motivo de orgulho. Mesmo porque, para uma nação que busca o desenvolvimento, as universidades devem se constituir em um pilar básico para que se atinja o objetivo. A fragilização como centro de ensino e pesquisa das nossas universidades é grave. Elas não podem cumprir unicamente o ritual burocrático de titulação de profissionais no nível superior. Lamentavelmente, isso vem ocorrendo. E o exemplo, não único, dos exames da OAB, onde a média de reprovação dos bacharéis em Direito chega perto dos 90%, é devastador.

As perguntas que não podem calar são diretas: o que está acontecendo com as nossas universidades? A revitalização dessas instituições deve ser um objetivo comum? A excessiva burocratização não levou à quebra de flexibilidade nas estruturas decisórias? A gestão politizada advinda do populismo eleitoral, onde o contubérnio dos corpos docente, discente e administrativo elege os seus dirigentes é positivo?

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A universidade deve ser sacralizada no respeito e na perseguição da meritocracia, advinda do saber, como sua razão de ser. Uma universidade de alto nível deveria ser o objetivo permanente a se perseguir. A valorização dos corpos docentes nos seus vários departamentos deveria ser acontecimento natural. A principal matéria-prima de uma universidade não é a construção de mastodônticas edificações. São os seus professores e pesquisadores que, ao optarem pela docência universitária, passaram a dedicar a própria vida a essa missão superior de formar gerações, nos diversos campos do conhecimento humano.

A crise da universidade brasileira é inquietante e profundamente danosa ao próprio desenvolvimento do País. Nos países desenvolvidos a inserção dos centros universitários de alto nível é determinante. Naqueles em vias de desenvolvimento, a partir da Ásia, o próprio ranking aqui transcrito demonstra essa importância. O que comprova que o enfraquecimento das universidades se expressa no próprio atraso daquelas nações que resistem à modernização integradora. A universidade é o grande elo para a edificação de um autêntico projeto nacional de desenvolvimento.

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Infelizmente, no Brasil muitos governantes não têm essa dimensão de compreensão. O mérito nas carreiras docentes e de pesquisa nessas instituições nem sempre é respeitado. As universidades públicas vivem ciclos permanentes de conflitos, onde as reivindicações de melhoria da qualidade de ensino e dos deteriorados proventos são acontecimentos quase normais. Quando deveria ser anormal, já que a universidade precisa ser o grande farol na formação das gerações que serão os grandes sujeitos na construção do futuro. E que no presente precisam receber uma formação ao nível de excelência.

Por fim, há de se constatar que entre as vítimas dessa conjuntura estão aqueles que vêm a ser a razão da própria universidade: os seus professores, pesquisadores e alunos. É preciso respeitar a inteligência criativa desses arquitetos da vida universitária. Mesmo porque não se constrói um País cultivando a ignorância.

Hélio Duque é ex-deputado federal.