Uma verdade incômoda

O ditador austro-alemão Adolf Hitler fez seguidores, infelizmente, e alguns agem com tanta verossimilhança na obsessão pelo poder que perdem o senso e atribuem aos adversários as táticas absorvidas do famigerado estilo do nacional-socialismo. Hitler continua sempre em voga, a julgar pela quantidade de livros descrevendo esta ou aquela peculiaridade de seu caráter. A mais recente descoberta denuncia sua predileção por músicos eruditos russos e judeus, raças que em público desancava como subumanas e degeneradas.

Apesar da dureza da comparação, a atual conjuntura política brasileira é um melancólico relicário que mostra a instabilidade emocional de alguns, cuja conduta os coloca acima das leis e dos bons costumes, se assumindo como predestinados a impor sobre os semelhantes a verdade incômoda do renascimento do autoritarismo em suas formas mais abomináveis.

Portanto, para conceder elementos comparativos aos que se deixam tocar pela retórica dos pseudocondoreiros nutridos pela falácia, vamos lembrar algumas facetas da gênese da oligofrenia que insultou a nobreza não só da alma germânica, mas de todos os homens de princípios nas épocas seguintes. Os comentários são de Ian Kershaw, autor de Hitler, um perfil do poder (Jorge Zahar Editor, RJ, 1993), um dos inumeráveis ensaios biográficos sobre o cabo austríaco disponíveis em português. É possível que aflorem episódicas coincidências correntes.

?Seus contatos com a social-democracia vienense levaram a uma violenta rejeição de sua doutrina fundada na luta de classes, antinacionalista?, escreveu, frisando que tão logo reconheceu os judeus como ?culpados? de todos os males começou a encaixar os elementos essenciais de uma ideologia baseada na ortodoxa repulsa à sociedade vigente, ?combinada com uma visão utópica de uma futura ordem a ser criada pela autoridade vigorosa e implacável de um Estado nacional?.

?Orador popular nato, através de seu fanatismo e seu estilo populista, decididamente forçava sua platéia a atentar para suas opiniões e compartilhá-las?, Hitler começou a imprimir sua marca de demagogo populista nas cervejarias de Munique – as estações de rádio da época não o convidavam para entrevistas – e suas opiniões políticas sustentadas e expressas com extraordinário fanatismo tinham origem no cardápio da extrema-direita.

O biógrafo lembra que o messianismo de Adolf, que se vivesse no Brasil jactar-se-ia de jamais ter carteira profissional assinada, porque nunca trabalhou, dava-lhe uma convicção que não admitia alternativas, um dogmatismo voraz e assistemático e ?domínio intrínseco sobre aqueles que o conheciam?. Segundo Kershaw, a memória extraordinária para os detalhes impressionava os que estavam em sua presença e também esvaziava as tentativas de contestá-lo. O que segue é emblemático: ?A redução de todas as situações a alternativas de preto no branco, uma das quais era passível de ser sumamente ridicularizada, bem como a força retórica de expressão em que as questões complexas eram desdenhosamente descartadas ou simplificadas, seguindo a orientação das ?verdades básicas? incontestáveis, significava também que a oposição cara a cara tinha escassas probabilidades de êxito?.

A altivez de Hitler, ?a suposição de sua própria grandeza olímpica e seu sentimento de infalibilidade foram singularmente ampliados?, a ponto de se mostrar ?cada vez mais alérgico ao menor sinal de crítica, cercando-se cada vez mais de um cortejo de companheiros bajuladores. O sentimento crescente de confiança, de ser capaz de determinar sozinho os acontecimentos, e o desprezo cada vez maior pelos críticos e opositores corresponderam a uma arrogância aprofundada de poder, aos estágios iniciais do que iria se transformar numa catastrófica folie de grandeur (mania de grandeza) e num afastamento da realidade?.

O fim foi trágico: ?Nos últimos meses da guerra, embora estivesse ainda apenas em meados da casa dos cinqüenta, o corpo de Hitler era o de um velho. O cabelo estava grisalho, a cabeça e as mãos tremiam visivelmente, ele mal conseguia dar mais de alguns passos arrastados, com o andar recurvado e instável, tinha os olhos injetados e, por vezes, a saliva escorria da sua boca?.

A visão messiânica do déspota imortalizado num filme genial de Chaplin com certeza impele o observador a avaliar ?a predileção de Hitler pelas questões ligadas a seu prestígio pessoal, a seu pendor pelos efeitos teatrais e pelo impacto propagandístico dos grandes golpes, a seus temores acerca de uma possível perda de popularidade, e a sua relutância em enfrentar o povo alemão quando os reveses se acumularam, nos últimos anos da guerra?. Assim será com todos os tiranos.

Ivan Schmidt é jornalista.

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