Gaudêncio Torquato

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Não é todo dia que se ouve alguém, de público, ameaçar açoitar o mandatário de uma nação. Foi o que fizeram os senadores Arthur Virgílio, Heloísa Helena e o deputado ACM Neto. Daí a pergunta: por que um senador de alto coturno, chamado de pitbull dos tucanos, uma senadora das Alagoas, estado que já foi considerado ?terra da pistolagem?, e um deputado baixinho, apelidado de pequeno samurai, por conta do DNA baiano dos Magalhães, querem nocautear o presidente? E por que tal xingamento não causa comoção, a não ser risos incontidos da turba?

Duas respostas se apresentam: a primeira está no reconhecimento de que o Brasil é o país da fanfarronada. Aqui, a bravata é sinal de coragem, bastando observar os valentes discursos travados nos palcos políticos, onde aos ataques rancorosos se seguem tapinhas nas costas entre ?guerreiros adversários?, a demonstrar que no Congresso se assiste a uma Batalha de Itararé por dia. E que dizer, então, das CPIs, onde mentira e versão, verso e reverso, o sim e o não mudam de lado a cada instante, indicando que a investigação sobre corrupção é um jogo de esconde-esconde? A segunda resposta está no axioma: quem é dono da flauta dá o tom. Ora, sai dos lábios do dono da flauta, o presidente da República, o tom menor da expressão política. Lula faz da linguagem escabrosa arma de conquista. Abusa de imagens populares para gerar empatia nas classes C, D e E. Um presidente da República, porém, tem a responsabilidade de conferir nobreza ao cargo, não permitindo se domesticar pela mediocridade.

O repertório de parvoíces presidenciais já tem vida garantida no vocabulário nacional. Talvez por isso, qualificações como ?idiota ou corrupto?, atribuídas a ele pelo mesmo senador Arthur Virgílio, parecem não incomodá-lo. Seriam extensões da ?urucubaca de madonas choronas?, aforismo com que distingue aqueles que torcem contra seu governo? Por dever de justiça, lembre-se que Fernando Henrique também se valia de estocadas contra adversários, como os termos ?neobobos? e ?fracassomaníacos? para designar quem ousava apontar o irrealismo de sua política cambial sobrevalorizada. Na galeria dos nossos presidentes eleitos pelo voto direto, a exceção de perfis silenciosos é a do marechal Eurico Dutra, ?o catedrático do silêncio?, aquele que trocava o C e o S pelo X. Não falava besteira porque, dizia, apreciava ?as cenas mudas?.

Com floreios lingüísticos de nível duvidoso, a contribuição dos nossos homens públicos para a elevação cultural e ética da sociedade brasileira tem sido medíocre. O debate político apequena-se. Torna-se disputa de egos. Os temas nobres que oxigenam as veias da política – como os valores republicanos, o ideal democrático, as doutrinas, os direitos da cidadania – se perdem no meio da fuzarca da retaliação. Não apagamos de todo a imagem de território barbarizado por tiroteios entre bandidos e mocinhos, cada um, claro, querendo aparecer como o lado do bem. Se alguém insere um conceito valorativo na pauta congressual, como o respeito à lei, o discurso cai no vazio. As CPIs são espaços de verbos em contrário. A igualdade perante a lei é outra ficção. A res publica continua sendo fatiada entre fulanos e beltranos. A briga por nomeações para cargos públicos não diminuiu. A rede de proteção social se estreita. Os programas têm um caráter assistencialista, apenas mantendo o status quo. Nas três esferas da administração, o déficit de ação pública se agiganta. O que dizer da incúria governamental na política de prevenção contra a febre aftosa? Agora é o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, quem reconhece: ?Houve relaxamento?. Os focos da doença se expandem e ninguém, ninguém mesmo, recebe um puxão de orelhas. Para completar a escalada de inércia, o próprio presidente Lula admite que os programas prioritários não avançam e ordena: ?Gastem mais?. A administração federal vai, assim, esgarçando os furos da gigantesca peneira.

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Está sendo difícil sustentar a base de equilíbrio da República. Que harmonia federativa se pode exigir quando a União arrecada 61% do bolo tributário, enquanto os estados ficam com 24% e os municípios, com 15%? A identidade republicana, que nunca foi tão forte, se esboroa ante os entreveros do cotidiano político. A independência dos poderes é mais uma ficção que a crise política escancara. E assim, a sociedade vai se afastando da esfera político-governativa.

Não se trata de afastamento alienado. Ao contrário, ela avança no sentido da autonomia, enquanto o Estado recua em seus deveres. Também, pudera! Quem leva surra todos os dias é a República.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. 

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