Ivan Schmidt
A indicação do deputado federal Paulo Bernardo (PT-PR) para o Ministério do Planejamento foi acertada não apenas pelo fato da reconhecida competência do parlamentar no campo de economia e finanças, confirmada pela boa atuação em secretarias estaduais e municipais, mas acima de tudo em função do seu excelente relacionamento com a bancada petista e, mais importante, com o ministro Antônio Palocci, fiador de sua escalação.
O deputado Paulo Bernardo, no exercício passado, presidiu a importante Comissão Mista de Orçamento do Congresso, escolhido exatamente pela versatilidade no trato das várias etapas da elaboração de orçamentos, bem como no acompanhamento de sua execução. Não é recente a experiência do hoje ministro da área, tanto que foi secretário estadual da Fazenda no Mato Grosso do Sul, no primeiro mandato de Zeca do PT, e em Londrina, no primeiro mandato de Nedson Micheleti.
Assumindo agora o Planejamento, setor vital para o êxito da gestão pública, Paulo Bernardo passa a ocupar uma cadeira no importante círculo íntimo de auxiliares do presidente da República, ele que tem sido desde o início do mandato de Lula um interlocutor privilegiado de Palocci. É também um dos parlamentares mais próximos do presidente, portanto, nome certo para compor o ministério quando o governo precisa mais uma presença respeitada na Esplanada.
Com o passar do tempo, a força fundadora do governo e, por extensão, a resistência do chamado núcleo duro, foi sendo minada pelas turbulências originadas numa base heterogênea como a que apóia o presidente, cuja vocação para a fisiologia foi explicitada no grotesco episódio do ultimato do deputado Severino Cavalcanti, no melhor momento de Lula desde a posse, confinado à sua extração de político menor.
O ministro Paulo Bernardo é mais uma garantia de que Lula não pretende abrir mão do comando, para os mais expeditos, a cada dia em perigosa erosão pelo descompasso das bancadas em votações importantes perdidas pelo governo. Um nome forte do PT no ministério, parlamentar respeitado por sua atuação na Câmara, servirá também para ampliar o canal de entendimento com os vários ramos da aliança política, além de tornar categórica a predominância qualitativa do partido no governo.
Fechando o ângulo da apreciação, é forçoso reconhecer o fortalecimento do PT paranaense com a indicação de um de seus mais expressivos quadros para o primeiro escalão federal. O deputado Paulo Bernardo tem sua base política em Londrina, um dos poucos municípios importantes do País (o único no Paraná) onde o PT conseguiu reeleger o prefeito. O relacionamento próximo entre Paulo Bernardo e o prefeito Nedson Micheleti, bem como com o presidente estadual da legenda, deputado André Vargas, e os demais componentes da Unidade na Luta, foi um dos fatores que levaram o PT à vitória.
Há alguns dias, o grupo reuniu-se em Curitiba para reiterar o posicionamento de independência em relação ao governo estadual, deixando clara a intenção de trabalhar com a hipótese de disputar a eleição de 2006 com candidato próprio. Um dos nomes ventilados foi o do deputado Paulo Bernardo, a partir de agora bafejado pela relevância da função delegada pelo presidente, a qual lhe dará – por força das contingências – espaço diário na cobertura política. Para o bem ou para o mal.
A exposição do deputado Paulo Bernardo, a depender do grau de acerto de suas decisões e a afinação com o fulcro do pensamento lulista – José Dirceu, Antônio Palocci, Aloizio Mercadante, Olívio Dutra, José Genoino, Marco Aurélio Garcia e Gilberto Carvalho, especialmente – onde transita com desenvoltura, sem dúvida, devem fazer do ministro o principal interlocutor das conversações em torno da candidatura própria ao Palácio Iguaçu.
O Paraná teve muitos de seus políticos no ministério, mas nos últimos tempos não havia sido distinguido com o merecimento adequado. Paulo Bernardo fez reviver a atenção federal e tem tudo para acertar como ministro, pois não entrou como moeda de troca no facilitário imposto pela fisiologia, em boa hora repudiada pelo presidente.
Ao contrário, é homem de partido e assim deverá agir, fornecendo ao governo não só competência técnica na questão econômico-financeira e da execução orçamentária, mas a firmeza de suas posições políticas no sedimento da função do PT como norteador dos principais projetos de governo.
Afinal, uma excelente notícia de Páscoa.
Ivan Schmidt é jornalista.