Ivan Schmidt
Poucas coisas ocupam espaço mais representativo no imaginário de algumas pessoas que a nomeação para o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas. Afinal, estreita escada somente galgada por cidadãos medidos pelos rigorosos padrões da meritocracia, infelizmente, nesse caso, sem o mesmo peso atribuído ao inflexível cânone do notório saber. Sem esta etiqueta ninguém chega lá.
Quanto aos méritos exibidos pelos iluminados pretendentes a tamanha honraria, não cabe a menor discussão. Aliás, não seriam esses cidadãos prestantes da comunidade, desguarnecidos de razão e estro a ponto de deixar pra lá os cuidados com o capital, com os rebanhos que pastam tranqüilamente em campos que a vista não alcança ou com outros empreendimentos de vulto, para, sem mais nem menos, fazer crescer em torno de seus nomes a expectativa da nomeação.
Fato impressionante e merecedor do mais elevado destaque deu-se na clarividência exposta por um de nossos diários, cuja notícia sobre o preenchimento da próxima vaga de conselheiro do Tribunal de Contas tudo esclarecia e revelava no próprio título, poupando o leitor abestalhado de inserir-se no restante do texto. Era mais ou menos assim: ?Todos querem ser conselheiros do TC?.
Ampliando o registro dos fatos notáveis, justificado motivo de orgulho para a sociedade paranaense, resta a obrigação de bradar a todos os quadrantes, a julgar pelo número dos habilitados ao desgastante e mal-remunerado sacrifício cívico de envergar a toga de conselheiro do contencioso estadual, que no quesito sabedoria notória estamos no mesmo nível das acrópoles gregas. Temos um verdadeiro superávit dessa qualidade cada vez mais rara, sobretudo no meio político, donde saiu a maioria dos conselheiros nomeados nos últimos vinte anos.
Muitos têm feito a parva observação que mais justiça haveria se essa e outras funções públicas, exceção feita aos cargos eletivos disputados voto a voto, por isso mesmo transformados num severo exame em que poucos são aprovados, fossem preenchidas pelo candidato colocado em primeiro lugar num concurso aberto a todos os interessados.
Na verdade, sem apoquentar a vida de ninguém, nem de longe os diletos dirigentes do aparelho de Estado a quem se confiou a ingrata missão da governança e, tampouco, desmerecer a visão engrandecida de quem associou o saber notório à nomeação dos conselheiros do TC, dir-se-ia que, aqui e no caixa-prego, a melhor maneira de aferir dotes de inteligência desenvolvida e intelectualidade proficiente sempre foi e sempre será o concurso público.
Não foi por acaso que o exímio adestrador de pulgas, prestidigitador e lente da cadeira de divindades esotéricas na Universidade da Terra do Fogo, Josef Nório Sculhof, outro dia deitava falação num boteco da Riachuelo, depois de entornar umas e outras, sobre sua conspícua condição de assumir a pesada responsabilidade. ?Saber notório, talento para o jogo do bicho, discernimento e razão não me faltam?, gaguejava o homúnculo, cujo único defeito é pertencer ao abjeto estrato social chamado – não se conhece a origem da discriminação -plebe.
E notem que Sculhof é, acima de tudo, um inveterado tímido ao falar de virtudes próprias. Não conheço outro que tenha tantos livros recusados pelos editores, mesmo sob o compromisso de arcar com 80% dos custos. É incrível o número de conferências internacionais canceladas na agenda desse luminar, bem assim a quantidade de vezes que as secretárias informam que o chefe está em reunião, ao lhe reconhecerem a voz.
Portanto, um homem à altura desse elevado patamar da cidadania. Uma sabedoria excelsa a ser explorada em benefício do povo, em nome de quem se cometem tantos desatinos. Não creio noutra oportunidade em que a boa vontade de Josef Nório Sculhof dê essa canja toda. É agora ou nunca!
Ivan Schmidt é jornalista.