Hélio Duque
Falar do passado em política é testemunhar acontecimentos importantes que caíram no esquecimento. Não se trata de nostalgia, porque seria o desejo de voltar ao passado. No Brasil do presente, e o Paraná não é exceção, vem prevalecendo uma visão utilitarista e deformada onde a ignorância do passado é predominante. Felizmente não se constrói o presente e o futuro sem uma objetiva visão histórica, sociológica, econômica e política dos acontecimentos positivos e negativos do passado. Certamente a crise ética, moral e política dos dias atuais tem aí a sua origem. O utilitarismo e a busca de resultados a qualquer preço, sobretudo na esfera política, são os grandes responsáveis pela falta de consciência e a moral em frangalhos dos tempos presentes.
Essas reflexões decorreram de recente conversa entre dois eminentes homens públicos do Paraná, Alvaro Dias e Paulo Pimentel. Dois ex-governadores que marcaram o Estado com administrações modernas, desenvolvimentistas e integradoras das suas dinâmicas regiões, em tempos diferentes. Paulo governou de 1965 a 1970; Alvaro de 1986 a 1990, em momentos históricos diversos. Ambos eleitos pela majoritária vontade do voto popular. Paulo relembrava o pluralismo democrático dos seus veículos de comunicação, onde a oposição, na década de 70, tinha o acesso de se expressar com liberdade. O que afrontaria os donos do poder em Brasília e os seus seguidores no Estado.
A TV Iguaçu, a TV Tibagi, a Rádio Iguaçu, os jornais O Estado do Paraná e a Tribuna do Paraná praticavam um jornalismo aberto às diferentes correntes de pensamento, em um tempo de feroz ditadura. Foi uma abertura destemida e corajosa. No norte do Paraná, a TV Tibagi, que retransmitia a Rede Globo, (a exemplo da Iguaçu), tinha liderança absoluta nas regiões norte, noroeste, oeste e sudoeste. Paulo naquele encontro recordava que José Richa, Alencar Furtado, Alvaro Dias, e esse escriba, tinham presença em comentários e entrevistas na emissora de maneira permanente. Fato rigorosamente verdadeiro.
O MDB do Paraná (não obstante ser filiado à Arena) teve em Paulo Pimentel um aliado fundamental na sua trajetória de consolidação que culminaria na grande vitória de 1974. A origem das hostilidades entre ele e a Arena paranaense teve na indicação biônica do seu sucessor o tiro inicial. Ao nomear o deputado Haroldo Leon Peres governador do Paraná, o general Garrastazu Médici colocava no Palácio Iguaçu um político primitivo que no discurso de posse rompia e hostilizava a administração que se encerrava. Paulo aceitou o ?terçar de armas?, e meses depois o próprio Médici cassava Leon Peres por ato explícito de corrupção. Mas o preço político e econômico que pagaria seria gigantesco. Em 1975, como decorrência da vitória do MDB no ano anterior, teve a programação da Rede Globo retirada a ?manu militari? das suas emissoras de televisão. A Rádio Iguaçu foi cassada pelo Dentel, o jornal Panorama, editado em Londrina, era fechado. E a TV Coroados, que comprara em Londrina, sob pressão, foi obrigada a vendê-la a um grupo empresarial que, depois do contrato assinado, usou de ?chicana jurídica?, alegando irregularidades na documentação para não pagar o valor integral da transação. Com estímulo do próprio governo.
Relembro que em março de 1979, sendo eu e Paulo Pimentel deputados federais, fiz um breve discurso denunciando que o grupo de ?caloteiros? havia obtido concessão para uma nova TV em Londrina. E convencera o governo Geisel a declarar a ?perempção? da TV Coroados. Falei da sua história de ter sido a primeira televisão inaugurada no interior do Brasil. O encerramento das suas atividades seria uma agressão ao norte do Paraná. O ministro Golbery do Couto e Silva recebeu cópia do pronunciamento e, como a posse de João Figueiredo se daria dias depois, e ele continuaria chefe da Casa Civil, reteve o processo de perempção. A TV Coroados foi devolvida ao seu legítimo proprietário com o compromisso de vendê-la com imediatidade. O que foi feito.
Aquela conversa do Paulo com o Alvaro fez-me recordar, 30 anos depois, a firmeza que expressou com atos e fatos. O MDB histórico, naqueles anos terríveis, teve nos seus veículos de informação uma abertura na pregação dos valores democráticos que muito ajudaram no restabelecimento do Estado de Direito. O preço que pagou nas suas atividades empresariais foi incalculável. A rigor, sua resistência ao arbítrio já vinha de anos anteriores. Em 1968, no exercício do governo do Estado, Paulo Pimentel impediu o fechamento da Assembléia Legislativa, já deferida pelo ministro da Justiça, Gama e Silva. Fato certamente desconhecido pelos atuais deputados estaduais. Enfrentou o ministro e obteve junto a Costa e Silva êxito na missão, ficando marcado para sempre nos segmentos radicais da chamada ?linha dura? do autoritarismo.
Recordar é viver. Os mais antigos testemunharam os fatos enumerados. Aos mais jovens, quando nada, fica o testemunho de um tempo em que era fundamental assumir posições. Diferente dos tempos atuais, onde prevalece o Estado de Direito democrático, com plenas garantias constitucionais, mas a covardia e a pusilanimidade vêm esgarçando o tecido social e político da sociedade. Reagir contra essa anomia é dever dos homens e mulheres de boa vontade. A anorexia democrática não pode se alastrar como uma fatalidade do tempo presente. Daí a importância de se ter memória e conhecimento do passado, para não repetir no presente e no futuro os mesmos equívocos de um tempo brasileiro que não pode ser esquecido. Onde a intolerância, o ódio, a delação, a perseguição política e a destruição pessoal e empresarial de quem resistia era uma filosofia de poder.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.